'A Casa dos Segredos': a luxuosa mansão usada pelo Reino Unido para espionar generais nazistas e que mudou a história da 2ª Guerra Mundial
A mansão inglesa de Trent Park, no norte de Londres, abriu as portas ao público no mês passado pela primeira vez como museu, em reconhecimento ao papel que desempenhou durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O local foi usado pelos britânicos para monitorar, às escondidas, as conversas de generais nazistas capturados e mantidos ali como prisioneiros de guerra.
Construída segundo o estilo neogeorgiano, a propriedade foi herdada em 1912 pelo político e colecionador de arte sir Philip Sassoon, que promoveu uma ampla remodelação da fachada e dos interiores na década de 1920. Papéis de parede chineses e retratos de família assinados por pintores como o húngaro Philip de László e o italiano John Singer Sargent decoravam os salões. Segundo o assessor sênior de Trent Park, Simon Thurley, a arquitetura criada por Sassoon é "muito elegante, serena e discreta", com interiores amplos e sem excessos.
Com a morte de Sassoon, em junho de 1939, e o início da guerra, em setembro, o governo britânico requisitou a mansão. Thomas Kendrick, um dos mais altos dirigentes do serviço secreto britânico, identificou o local como ideal para instalar um Centro de Interrogatório Detalhado dos Serviços Combinados (CSDIC, na sigla em inglês). Kendrick já havia testado a escuta de prisioneiros na Torre de Londres, mas concluiu que os centros de interrogatório precisavam funcionar em locais mais discretos e distantes do centro da capital, para reduzir o risco de bombardeios.
De acordo com a historiadora Helen Fry, autora do livro The Walls Have Ears, a mansão inteira e o bloco das cocheiras foram equipados com microfones, escondidos em vasos de plantas, luminárias, na mesa de bilhar e até em árvores dos jardins. Fios ocultos atrás dos painéis e sob o assoalho ligavam os aparelhos às salas de escuta no porão, conhecidas como salas "M" e agora recriadas pelo museu. Lá, agentes monitoravam as conversas dia e noite.
Trent Park se tornaria o principal centro de detenção de oficiais alemães de alta patente, muitos de famílias ricas ou aristocráticas. Cada general tinha seu próprio criado militar, também capturado, e havia biblioteca, aulas de inglês e eventuais passeios pela cidade. Os prisioneiros também contavam com um responsável fictício por seu bem-estar, o "lorde Aberfeldy", aristocrata escocês interpretado por um jovem oficial de interrogatório que dizia admirar Adolf Hitler em segredo para estimular confidências. Ainda assim, os generais pareciam acreditar que não eram monitorados.
Com o avanço da guerra, a dificuldade dos agentes britânicos em entender jargões e gírias levou ao recrutamento de refugiados judeus falantes de alemão, vindos da Alemanha, da Áustria e da Tchecoslováquia. Um deles foi Ernst Lederer, avô da comediante e atriz Helen Lederer, que fugiu da Tchecoslováquia em 1939 em um dos últimos trens a deixar o país. Como os demais, assinou a Lei de Segredos Oficiais e manteve o trabalho em sigilo durante a guerra e pelo resto da vida.
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Por Redação