A nova era da 'guerra às drogas', no centro da estratégia de Trump para a América Latina
A política de combate às drogas dos Estados Unidos entrou em uma nova fase sob o governo de Donald Trump, marcada pelo aumento da militarização e por uma retórica que equipara traficantes a terroristas. Segundo a cientista política Vanda Felbab-Brown, pesquisadora sênior da Brookings Institution, trata-se de "uma nova era, por vários elementos", sendo o principal deles a "militarização extrema, sem precedentes".
De acordo com a especialista, a agenda atual está ligada a um esforço político e ideológico de extrema direita nos países da região, que vai além da guerra às drogas ou dos objetivos americanos no continente. Ela cita a chamada "Doutrina Donroe" — referência ao primeiro nome de Trump e uma versão contemporânea da Doutrina Monroe, de 1823 — como mecanismo central dessa estratégia.
Desde o início do segundo mandato de Trump, em janeiro do ano passado, os EUA designaram mais de 20 cartéis e organizações criminosas latino-americanas como Organizações Terroristas Estrangeiras. Entre elas estão as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), incluídas apesar da oposição do governo brasileiro, além de grupos da Colômbia, El Salvador, Equador, Venezuela e México. No mesmo período, ataques militares americanos contra pequenas embarcações no Caribe e no Pacífico mataram mais de 200 pessoas, sob a justificativa, sem apresentação de evidências, de que se tratava de "narcoterroristas".
O governo Trump também lançou o Escudo das Américas, aliança regional para ampliar a cooperação e o combate ao narcotráfico, da qual o Brasil não faz parte até o momento. Na primeira cúpula do grupo, realizada em março na Flórida, 12 líderes anunciaram uma coalizão para erradicar os cartéis, abrindo caminho para o compartilhamento de inteligência e para o uso de força militar contra grupos envolvidos no narcotráfico. Colômbia, Equador e Honduras estão entre os países que concordaram em permitir ações conjuntas dos EUA em seus territórios.
Para John Walsh, diretor para Políticas de Drogas e dos Andes do Washington Office on Latin America, a guerra às drogas e ao "narcoterrorismo" integra uma agenda para impor domínio sobre a região, "por coerção, se necessário". Ele observa que a metáfora da guerra tem sido acompanhada pelo emprego efetivo de forças militarizadas contra civis, e lembra que cartéis são diferentes de redes terroristas: estão enraizados em comunidades e entrelaçados tanto em economias ilícitas quanto legais. "A ideia de que essas redes possam ser neutralizadas ou destruídas por meio de ações militares simplesmente não vai funcionar", afirma.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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Por Redação