Bolsonarismo se fortaleceu tanto que não precisa mais dos militares, diz especialista em Forças Armadas
O cientista político João Roberto Martins Filho, professor titular da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), avalia que o bolsonarismo se fortaleceu a ponto de não depender mais dos militares para eleger candidatos ou governar. Em entrevista à BBC News Brasil, ele afirma que as Forças Armadas hoje estão de volta aos quartéis e que essa mudança tende a ser mantida mesmo em uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro (PL).
Segundo o pesquisador, a forte votação obtida por políticos bolsonaristas no primeiro turno da eleição demonstra que o movimento não precisa mais do apoio militar. Ele também sustenta que as próprias Forças Armadas devem querer manter distância do governo após a experiência na gestão de Jair Bolsonaro (PL). "Foi extremamente negativo [para as Forças]", diz, citando ocasiões em que, segundo ele, Bolsonaro submeteu os militares a vexames, até expô-los à tentativa de golpe.
Martins Filho lembra que, quando Bolsonaro se elegeu em 2018, as Forças Armadas assumiram um papel na política que não desempenhavam desde o fim da ditadura militar, em 1985. Um levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que 6.157 militares da ativa e da reserva ocuparam cargos naquela gestão. Hoje, vários militares estão presos e condenados por articularem um golpe de Estado para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2023.
Na avaliação do professor, o atual comandante do Exército, general Tomás Ribeiro Paiva, e o chefe do Estado-Maior, general Richard Fernandez Nunes, prometeram tirar as Forças Armadas da política, e isso efetivamente ocorreu. Os militares da ativa voltaram a fazer o que faziam até 2014, e opiniões políticas deixaram de ser expressas em público ou nas redes sociais. Ele ressalva, porém, que a mentalidade militar não mudou e que a votação em Flávio Bolsonaro entre os militares foi muito alta.
Sobre uma eventual gestão de Flávio, Martins Filho afirma que a conjuntura é diferente da do pai e que, ao contrário de Jair Bolsonaro, ele não deve nomear generais para a equipe de governo. O pesquisador é autor de livros como "O palácio e a caserna" (1995) e "Os militares e a crise brasileira" (2021), coordenou o Arquivo de Política Militar Ana Lagôa entre 1996 e 2016 e foi o primeiro presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED).
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Por Redação