“Bomba-relógio”: Indonésia vive momento mais delicado desde 1998, dizem economistas
A economia da Indonésia atravessa o momento mais delicado desde a crise financeira asiática de 1998, quando o colapso econômico levou à queda do então ditador Suharto. O alerta é de economistas ouvidos em meio a uma onda de turbulência nos mercados, inflação em alta e escassez de combustíveis em diversas cidades do país.
Na sexta-feira, os mercados foram abalados depois que a MSCI, provedora global de índices, sinalizou que poderia retirar a Indonésia de seus índices de referência. A Bolsa do país registrou a maior queda diária desde 1998, recuando mais de 11%, e na segunda-feira as vendas continuaram, com baixa adicional de 3,6%. A MSCI citou a “falta de aplicação efetiva de medidas contra manipulação de mercado” ao justificar o alerta, iniciando consultas sobre um possível rebaixamento da classificação do país.
“É uma bomba-relógio”, afirmou Ferry Latuhihin, ex-economista-chefe do Bank International Indonesia e integrante de um conselho de especialistas que assessorou o presidente Prabowo Subianto antes de sua posse. “Ninguém imaginava, em 1997, que Suharto cairia por causa do mau funcionamento da economia. Acredito que a mesma história pode acontecer com este governo.” O ex-ministro do Comércio Thomas Lembong seguiu a mesma linha: “Estamos cada vez mais próximos da beira do abismo”.
Os indicadores sociais reforçam a preocupação. A população considerada de classe média encolheu cerca de 19% em relação ao pico anterior, a taxa de poupança das famílias de baixa renda despencou e o desemprego entre os jovens gira em torno de 17%, um dos níveis mais altos da Ásia. A situação de Novri Putra, de 28 anos, formado em tecnologia da informação no ano passado, ilustra o cenário: ele trabalha como motorista de mototáxi por aplicativo e ganha cerca de US$ 220 por mês, em vez de atuar como desenvolvedor web.
Segundo os economistas, as políticas de Prabowo têm agravado os problemas ao enfraquecer instituições e ampliar programas populistas que pressionam as contas públicas, como o de refeições gratuitas para mais de 80 milhões de estudantes, estimado em até US$ 30 bilhões por ano. Neste ano, Moody’s e Fitch reduziram a perspectiva da nota de crédito do país de estável para negativa, e a rupia ultrapassou a marca de 18 mil unidades por dólar. A saída de figuras-chave, como a do Ministério das Finanças e a do presidente do banco central, aumentou a insegurança dos investidores. Analistas avaliam, porém, que o risco é isolado à Indonésia, embora uma crise possa afetar cadeias globais de produção, já que o país é a maior produtora mundial de óleo de palma e níquel e grande exportadora de carvão térmico, cobre e gás natural.
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