Como a deusa grega Afrodite se tornou uma das figuras mais controversas da história da arte
A nudez de Afrodite, a deusa grega do amor — conhecida como Vênus entre os romanos —, provoca debates há séculos e está no centro de uma exposição que investiga como sua imagem se tornou alvo de tantas controvérsias culturais. A mostra Afrodite: A Criação de uma Deusa, aberta no Museu Ashmolean, em Oxford, no Reino Unido, percorre a história da divindade e as reações que ela despertou ao longo do tempo.
As reações extremas ajudam a medir esse impacto. Em 1880, o escritor Mark Twain classificou a Vênus de Urbino, de Ticiano, como "a imagem mais repugnante, desprezível e obscena do mundo". Em 1914, a sufragista Mary Richardson atacou com uma faca de açougueiro a Vênus ao Espelho, de Diego Velázquez, na National Gallery, em Londres, golpeando a tela pelo menos três vezes. "Eu não gostava da maneira como os homens ficavam olhando para ela de boca aberta o dia inteiro", disse ela depois, ao explicar um dos motivos do ataque.
Segundo a mitologia grega, Afrodite nasceu quando o titã Cronos castrou o próprio pai, Urano, e lançou seus órgãos ao mar; da espuma formada na água surgiu a deusa, já adulta, que deslizou sobre as ondas até Chipre. A versão histórica também começa na ilha, onde ela surgiu como divindade por volta de 1200 a.C., com características herdadas de deusas mais antigas do Oriente Médio, como Ishtar, Astarte e Hator. "A sexualidade, o amor e a fertilidade eram suas principais características", explica Anja Ulbrich, curadora da exposição, à BBC. "Mas todas elas tinham mais de uma função." No início, Afrodite não era apenas a deusa do amor romântico, mas de todas as formas de amor físico e da procriação. Também participou da Guerra de Troia e, segundo um dos mitos, é considerada fundadora da civilização romana: seu filho com o príncipe troiano Anquises, Eneias, fugiu para a Itália após a queda de Troia, e seus descendentes teriam fundado Roma.
A virada na história da arte veio por volta de 350 a.C., com a Afrodite de Cnido, de Praxíteles, primeira escultura da Grécia Antiga a representar uma mulher completamente nua. O original se perdeu, mas cópias romanas posteriores, como a Vênus Capitolina, permitem imaginar sua aparência. Antes, apenas figuras masculinas eram retratadas nuas. A diferença estava na postura: Afrodite é surpreendida durante o banho, parece tímida e tenta cobrir o corpo, enquanto os homens nus apareciam em poses confiantes e heroicas. A pose ganhou nome próprio — Vênus Pudica — e foi reproduzida milhares de vezes por escultores romanos, espalhando-se pela Europa, pelo norte da África e pelo Oriente Médio.
No Renascimento, artistas retomaram o modelo em obras de Masaccio, Botticelli, Rafael e Ticiano, e a fórmula reapareceu no Barroco, com Rubens e Velázquez, no século 19, com Cabanel e Manet, e no século 20, com Modigliani e Yves Klein. Para Ulbrich, o que tornou Afrodite tão provocante não foi simplesmente a nudez, mas a posição do corpo, concebida para despertar o desejo de quem a observava — tradição que a transformou em objeto de desejo sexual e que explica a indignação de Twain e o ataque de Richardson.
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