Crise dos títulos franceses revive fantasma da dívida soberana na Europa
A França enfrenta uma combinação de protestos estudantis, violência e perda de confiança dos investidores na capacidade do país de controlar sua dívida pública. A liquidação dos títulos franceses nas últimas semanas elevou os custos de financiamento a níveis não vistos em quase 25 anos. Na sexta-feira, o prêmio exigido pelos investidores para comprar títulos franceses de 10 anos em vez dos italianos atingiu um recorde.
O deputado da esquerda radical Louis Boyard, de 26 anos, defendeu durante debate na Assembleia Nacional que o governo abra "o talão de cheques" para atender às demandas dos jovens. O problema é que a França dificilmente pode arcar com os € 10 bilhões reivindicados pelos estudantes que lideram os protestos. O rendimento dos títulos franceses de 10 anos chegou perto de 5% neste mês e segue em torno de 4,85%, acima dos níveis inferiores a 4% observados há apenas dois meses. O índice CAC 40 acumula queda próxima de 10% nos últimos dois meses.
Os protestos, iniciados no fim de setembro, se espalharam pelo país e alguns episódios terminaram em violência. Milhares de pessoas foram presas e centenas de manifestantes e policiais ficaram feridos. Os estudantes pedem mais recursos para combater a superlotação das salas de aula e a deterioração da infraestrutura escolar, além de criticarem o aumento dos gastos militares enquanto outras áreas do orçamento são congeladas. Na semana passada, o governo prometeu enviar cerca de 3 mil professores para escolas com falta de profissionais. Os organizadores convocaram nova rodada de manifestações para terça-feira.
Especialistas temem sinais de contágio para a dívida de outros países, evocando a crise grega que quase desintegrou a zona do euro há quinze anos. Os spreads dos títulos da Itália e da Grécia também subiram nas últimas semanas, enquanto o euro perdeu valor frente a todas as demais moedas do G10 neste mês. A França possui uma economia de € 3 trilhões e cerca de € 3,6 trilhões em dívida, aproximadamente dez vezes o estoque que a Grécia possuía em 2010. O país, porém, continua tendo acesso aos mercados e seus bancos estão mais capitalizados do que em 2010, além de a Europa dispor hoje de mecanismos de resgate mais robustos.
As preocupações com as contas públicas devem se estender até a eleição presidencial de 2027 e além. A França não registra superávit orçamentário há mais de cinquenta anos e a dívida pública deve superar 120% do PIB nos próximos doze meses, ante menos de 100% em 2019. A conta de juros deve ultrapassar € 90 bilhões em 2027, superando inclusive o orçamento anual da educação. O atual primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, enfrenta o mesmo dilema de seus antecessores, que deixaram o cargo após tentativas frustradas de ajuste fiscal.
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Por Redação