Efeito BYD: como Brasil virou 'laboratório' de empresas chinesas
A fábrica da BYD em Camaçari, na região metropolitana de Salvador, foi inaugurada em outubro de 2025 e se tornou a maior unidade da montadora chinesa na América Latina. Em menos de um ano, a planta já produziu mais de 100 mil carros montados com kits importados, veículos que chegaram a concessionárias de todo o país e colocaram a marca entre as mais vendidas do Brasil. A produção com peças fabricadas localmente está prevista para começar no fim de 2026.
A operação já soma 7.618 funcionários diretos, dos quais 6% (457) são estrangeiros, segundo a empresa — a reportagem apurou que a grande maioria é de chineses. Também há trabalhadores chineses envolvidos nas obras ainda em andamento no complexo da fábrica e nos blocos de alojamentos. Nos registros da Polícia Federal constam a emissão de 2.310 vistos de residência em Camaçari e na vizinha Lauro de Freitas desde 2024, a maioria temporários.
Em uma cidade de pouco mais de 300 mil habitantes, a presença chinesa não é óbvia: não há um bairro de concentração dos recém-chegados, que se espalham entre hotéis e condomínios fechados. Os sinais do novo fluxo migratório aparecem aos poucos, como as placas com ideogramas chineses em dois restaurantes de yakisoba do mercado central e as reuniões em mandarim que a comunidade local de Testemunhas de Jeová passou a realizar recentemente.
A chegada da BYD a Camaçari ocorre no mesmo espaço físico antes ocupado pela Ford, que encerrou as atividades no local em 2021. Para Rogélio Golfarb, ex-executivo da Ford no Brasil e ex-presidente da Anfavea, a China apostou na eletrificação mais do que todas as outras regiões, com um programa de governo estruturado que passou por educação, pesquisa e desenvolvimento. Segundo ele, o país combinou pioneirismo, inovação, produção em larga escala e verticalização — a fabricação de quase tudo o que é necessário para colocar um carro na rua.
Essa combinação, afirma o consultor, deu aos elétricos e híbridos chineses grande competitividade justamente quando Estados Unidos e Europa se fechavam cada vez mais aos produtos do país. Foi então que a bússola apontou para a América Latina e, em especial, para o Brasil — país de dimensões continentais, rico em matérias-primas usadas nas baterias, com energia renovável abundante e grande mercado consumidor. "O Brasil hoje é o maior laboratório chinês que você tem no mundo no mercado automotivo. São mais de 20 marcas aqui", destaca Golfarb. Além da BYD, vieram a GWM, que comprou a fábrica da Mercedes no Rio Grande do Sul, e a Geely, que firmou parceria com a Renault em São José dos Pinhais, no Paraná.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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