Emendas, homenagens e ex-assessores ligam trajetória de Flávio Bolsonaro a personagens do universo das milícias no Rio
A trajetória política de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, acumula episódios que envolvem personagens investigados ou condenados por participação em milícias no Rio de Janeiro. As relações percorrem desde os primeiros mandatos na Assembleia Legislativa fluminense até a atuação no Senado. Entre os fatos documentados estão a contratação de familiares de Adriano da Nóbrega — apontado pelo Ministério Público como chefe do grupo de extermínio conhecido como Escritório do Crime —, homenagens a policiais investigados e a destinação de recursos públicos após negociações conduzidas por um homem condenado no processo sobre o assassinato de Marielle Franco. Os episódios não comprovam participação do senador em organizações criminosas, mas integram o histórico de suas relações políticas e de sua atuação na segurança pública.
Uma das revelações mais recentes envolve Robson Calixto Fonseca, o Peixe, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a nove anos de prisão por integrar a organização criminosa relacionada ao assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018. Segundo investigação da Polícia Federal divulgada em setembro de 2026, Peixe negociou diretamente com Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora do gabinete de Flávio, a destinação de uma emenda parlamentar de R$ 199.999,79. As mensagens recuperadas mostram que o condenado pediu ajuda ao gabinete e recebeu orientações sobre como encaminhar o pedido; a assessora sugeriu que ele aproveitasse um evento para reforçar pessoalmente a solicitação ao senador. O dinheiro foi para o Instituto IFOP, responsável por um projeto esportivo voltado a crianças e adolescentes na Zona Oeste do Rio. Um relatório técnico do Tribunal de Contas da União apontou indícios de desvio: parte da verba foi direcionada a uma empresa de serviços advocatícios sem relação evidente com a execução do projeto. Flávio negou irregularidades e afirmou, em nota, que a destinação respeitou os critérios legais e que a responsabilidade pela aplicação dos recursos caberia à entidade beneficiada. A investigação não demonstra, por si só, que o senador tivesse conhecimento de eventual desvio.
Outro episódio envolve Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelo Ministério Público do Rio como integrante de milícia e chefe do Escritório do Crime. Ele morreu em fevereiro de 2020, durante operação policial na Bahia. Antes disso, manteve vínculos indiretos com o gabinete de Flávio na Alerj: a mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, e sua ex-mulher, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, foram empregadas no gabinete do então deputado estadual. As duas também apareceram nas investigações sobre o suposto esquema de recolhimento de salários de assessores, conhecido como rachadinha, associado ao ex-assessor Fabrício Queiroz. Flávio e Queiroz negaram participação em irregularidades.
A relação com Adriano também foi marcada por homenagens públicas. Em 2003, Flávio apresentou moção de louvor ao policial; dois anos depois, concedeu a ele a Medalha Tiradentes, maior honraria da Alerj, quando Adriano estava preso sob acusação de homicídio. O policial foi condenado inicialmente, obteve a anulação do julgamento e acabou absolvido em novo júri. Flávio afirmou depois que considerava Adriano vítima de injustiça e que a homenagem reconhecia sua atuação como policial. O senador também apresentou homenagens a outros integrantes das forças de segurança posteriormente associados a investigações sobre milícias.
Durante a passagem pela Alerj, Flávio adotou posicionamentos interpretados por críticos como favoráveis à atuação de grupos de policiais e ex-policiais em comunidades fluminenses, e foi questionado por seu voto contrário à instalação da CPI das Milícias. Posteriormente, procurou se distanciar dessas posições e afirmou não defender organizações criminosas. Outro ponto de controvérsia envolve as políticas de flexibilização do acesso a armas e munições defendidas por ele. Reportagens do Estadão mostraram como integrantes de facções recorreram a intermediários e a registros de colecionadores, atiradores e caçadores para obter armamentos. O debate também alcançou propostas que poderiam reduzir exigências de identificação de munições, tema levantado por Lula no confronto presidencial da Band. A rastreabilidade dos cartuchos é considerada ferramenta importante para investigações, pois permite identificar a origem e reconstruir possíveis trajetórias de desvio.
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