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'Eu simplesmente aguentei': o abuso sexual de pessoas com deficiências que abalou a Coreia do Sul

Atualizado em 11/10/2026 às 19:50 schedule 4 min de leitura visibility 1 visualizações share 0 compartilhamentos (0)
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Uma residência assistida para pessoas com deficiência intelectual na Coreia do Sul tornou-se o centro de um escândalo de abuso sexual que abalou o país e reacendeu questionamentos sobre a forma como o Estado atende essa população. No início do mês, um tribunal de Seul condenou o diretor da instituição, identificado apenas pelo sobrenome Kim, a 15 anos de prisão. Ele nega as acusações e recorre da sentença.

A instituição, chamada Saekdongwon, fica na cidade de Incheon, a oeste da capital, e é totalmente subsidiada pelo Estado. Ainda abriga cerca de 33 moradores, mas o caso levou a pedidos de seu fechamento. Uma das vítimas, que a BBC identifica como Seo Mi-hyeon para proteger sua identidade, passou a morar no local em 2016. Ela tem deficiência intelectual, comunica-se por gestos e palavras breves, e afirma que os abusos começaram logo depois de sua chegada. Segundo seu relato, Kim a visitava à noite ou nas primeiras horas da manhã para estuprá-la.

Falando por meio de sua advogada, Ko Eun-young, Seo disse que não havia nenhum adulto no local a quem pudesse recorrer e que sentia que nenhum funcionário iria ajudá-la. A situação se estendeu por quase dez anos, até fevereiro de 2025, quando ela sofreu um ferimento na cabeça. Segundo o relato apresentado à Justiça, o episódio ocorreu durante uma tentativa de abuso: Seo bloqueou Kim com as mãos e ele atirou um copo contra ela. A instituição a levou ao hospital e informou sua mãe apenas depois dos pontos. Diante da recusa da entidade em fornecer as imagens das câmeras de segurança, a mãe retirou a filha da casa — e foi só então, ao saber que não precisaria voltar, que Seo revelou os abusos. Questionada sobre como suportou a situação por tantos anos, respondeu: "Simplesmente aguentei."

A investigação policial foi estendida a outras moradoras e encontrou pelo menos duas outras supostas vítimas, entre elas Lee Mi-na, que também afirmou ter sido estuprada por Kim. No início de outubro, a Justiça considerou confiável o testemunho das três. Kim foi condenado pelo estupro de Lee e Seo, pena cinco anos menor que o pedido dos promotores. Em relação à terceira vítima, foi considerado culpado de uma acusação menor, pois o juiz entendeu não haver evidências conclusivas de uso de força ou ameaças que a impedissem de resistir. Um comitê formado por grupos de defesa dos direitos das pessoas com deficiência criticou a decisão e o processo de investigação, afirmando que a capacidade de resistir ao ataque não deveria influenciar o veredito.

Um relatório da Universidade Woosuk, contratado por autoridades locais após as acusações iniciais, apontou indícios de que Kim pode ter assediado sexualmente pelo menos outras 10 moradoras, mas a conclusão não foi analisada no julgamento. A polícia enfrentou dificuldades para apurar os detalhes, já que a maioria das moradoras tem graves deficiências e dificuldades de comunicação. Ativistas afirmam que essa dependência do testemunho verbal fez com que moradoras com maiores dificuldades deixassem de ser reconhecidas como vítimas. O caso também gerou críticas a 13 petições que pediram leniência para Kim antes do veredito, uma delas citando sua "contribuição para o setor de bem-estar". O juiz classificou o delito como "particularmente repreensível", por Kim ter explorado o desequilíbrio de poder para satisfazer seus próprios desejos sexuais.

Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.

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