Luzes e sombras da relação visceral de Aldir Blanc com a mulher Mari Sá Freire são expostas em filme amoroso que abre o relicário afetivo do compositor
Documentário revela a intimidade de Aldir Blanc com Mari de Sá Freire
O Festival do Rio 2026 apresenta dois documentários sobre Aldir Blanc (1946–2020). Um deles, “Aldir Blanc – Resposta ao tempo”, confirma a transcendência da obra musical do compositor. O outro, “Fui olhar você dormir”, concentra-se na esfera íntima e pessoal de Aldir Blanc Mendes com a companheira de vida, Mari Lúcia de Sá Freire, com quem viveu por quase 34 anos.
Dirigido por Anna Azevedo, com roteiro assinado por ela e Cláudio Uchôa, o filme tem Mari como condutora da narrativa. Ao longo de quase três décadas e meia de convivência, o compositor escreveu cerca de dois mil bilhetes para a mulher. É esse relicário afetivo que Mari abre diante das câmeras, revelando uma relação visceral, marcada por amor profundo, dependência emocional, luzes e sombras.
Uma das passagens mais reveladoras mostra que Mari precisou abreviar uma viagem ao Canadá e aos Estados Unidos em dezembro de 1994 porque Aldir — o Pitoco, como era chamado na intimidade — adoecia de saudade da esposa, perdendo alguns quilos em poucos dias. Em um dos relatos, o compositor escreveu que não conseguia ver um filme inteiro nem avançar dez páginas em livro algum, e que desligava o telefone ainda pior após ouvi-la feliz e animada. Argumentos semelhantes em telefonemas e no diário de viagem escrito na ausência da mulher acabaram precipitando a volta de Mari ao Brasil.
A produção da Butterfly Filmes, de 72 minutos, encadeia imagens da intimidade do casal e da família, documentadas desde sempre em fitas VHS e celulares. É como se as imagens fossem a trilha sonora dos bilhetes — ou vice-versa. “Ele era um ser muito sozinho. E aí tinha os mecanismos de defesa. Aí sai pra bebida... Ele não se achava bonito. Ele era o patinho feio”, diz Mari, que em outra fala expõe o poder de sedução do patinho feio: “Ele me pegou pelas orelhas, pelo cangote”.
Se o alcoolismo muitas vezes nublou a relação de 34 anos até o vício ser enfrentado por Aldir, a presença dos netos na casa cheia foi outras vezes a luz que iluminou a vida do artista. “A mulher que floriu meu caminho está me deixando, mesmo que não parta”, observou ele em um dos milhares de bilhetes, ao detectar um esfriamento da paixão. O filme termina com a cena em que Mari joga as cinzas de Aldir no mar, ao som da versão em português de “Moonlight serenade”, escrita e cantada pelo próprio compositor. “Fui olhar você dormir” tem sessões no Festival do Rio até 7 de outubro.
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Por Redação