Mais caro transportar a alface do que comprar a alface: o novo choque nos EUA
O mais recente salto nos preços dos combustíveis nos Estados Unidos tem se mostrado mais difícil de absorver do que o registrado no início do ano, porque empresas e consumidores dispõem de menos capacidade para suportar o choque. Ao mesmo tempo, novos dados de preços indicam que a inflação vem se espalhando para além do setor de energia.
Embora os preços do petróleo bruto tenham se moderado parcialmente apesar da escalada da guerra com o Irã, limitações nas refinarias mantiveram elevados os custos da gasolina e do diesel. O preço médio do diesel atingiu US$ 6,30 por galão na quarta-feira, cerca de 68% acima do nível anterior ao conflito, segundo a AAA. Como o diesel é combustível industrial usado na manufatura, na agricultura e no transporte, sua alta se espalhou por diversos setores. O índice de preços ao consumidor do Departamento do Trabalho mostrou inflação subjacente de 2,6% em setembro, ante 2,4% em agosto, enquanto o relatório de vendas no varejo apontou avanço de apenas 0,2% nos gastos básicos, excluindo postos de gasolina.
O Livro Bege do Federal Reserve, levantamento sobre as condições econômicas e empresariais do país, reuniu alertas sobre os impactos dos preços mais altos dos combustíveis. O relatório aponta o surgimento de novas sobretaxas de combustível ao longo das cadeias de suprimentos, a compressão das margens de lucro e a redução de gastos pelos consumidores. O Fed de Nova York informou que um fabricante de alimentos não via pressões inflacionárias tão amplas desde a pandemia, e o de São Francisco destacou a reclamação de um fabricante de que praticamente todo material comprado nas últimas semanas veio com sobretaxa de frete.
O Fed de Richmond relatou o caso de uma rede regional de supermercados: com o diesel 30% mais caro desde o ano passado, a empresa agora paga mais para transportar uma alface da Califórnia do que pelo valor da própria alface. A rede também citou a extrema sensibilidade dos consumidores a preços e a incapacidade de repassar os custos crescentes do transporte. Empresas de transporte da região tiveram dificuldade para manter a rentabilidade após a alta do diesel, já que haviam firmado contratos com valores fixos, e muitas recorreram a reservas financeiras, reduziram gastos com manutenção ou suspenderam compras de caminhões mais eficientes.
Os efeitos também alcançam o mercado de trabalho. O Fed de Cleveland informou que várias empresas concederam reajustes salariais devido ao aumento do custo de vida, especialmente com gasolina e eletricidade, e entrevistados do Fed de São Francisco relataram pedidos de aumentos para compensar gastos maiores com combustíveis e alimentação. Segundo o Fed de Dallas, o preço mais alto do diesel foi de longe o fator mais citado para explicar a alta dos custos, impactando fretes, agricultura e passagens aéreas. Desta vez, diferentemente do início do ano, os consumidores não contam com a compensação das restituições de impostos, conforme avaliação da Oxford Economics citada no material.
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