Mesmo com 'Exército' de Janones, esquerda não tem força digital do bolsonarismo, diz Marcos Nobre
O professor de filosofia política da Unicamp e diretor-geral do Centro para Imaginação Crítica do Cebrap, Marcos Nobre, avalia que a esquerda ainda não dispõe de uma estrutura digital comparável à do bolsonarismo. A conclusão faz parte do estudo que deu origem ao livro O Partido Digital Bolsonarista, organizado por ele ao lado da professora Ana Claudia Teixeira.
Segundo Nobre, o chamado Partido Digital Bolsonarista (PDB) é uma nova forma de legenda que nasce nas redes, sem CNPJ nem registro na Justiça Eleitoral, mas que funciona como partido: tem hierarquia, organização, mobilização, engajamento, coesão, agenda e projeto de poder. A estrutura se alinha a partidos tradicionais, da direita ao centrão, para eleger políticos e acessar recursos partidários. "A gente pode dizer, sim, que o PDB é o maior partido do Congresso", defende o professor.
Do outro lado, a esquerda elegeu deputados surgidos nas redes sociais, como Jones Manoel (PSOL-PE) e Ana Elisa (PT-MG), mas, para Nobre, isso não configura um partido digital equivalente. "Existe algum grau de articulação, mas é mais parecido com um arquipélago do que com um partido", explica. Nem o canal de WhatsApp Exército de Lula, criado e promovido pelo deputado André Janones (Rede-MG) após o primeiro turno, muda esse quadro. "A ideia de exército é uma ideia que nada tem que ver com a arquitetura das redes. É justamente um tipo de ação que pode ter muito efeito numa eleição, pode ser importante, mas não pode ser uma estratégia de médio e longo prazo. É uma estratégia de curtíssimo prazo", afirma.
O professor também descarta que a iniciativa se sustente depois da eleição. "Não vejo como isso poderia continuar após a eleição, a não ser como um canal de transmissão do próprio Janones, porque o PT não aceitaria esse comando paralelo de alguém que não está submetido à hierarquia do partido." O canal contava mais de 6,6 milhões de inscritos na madrugada de quarta-feira (21/10), mas ficou sem atualizações quando o deputado foi internado com arritmia cardíaca após o debate presidencial na Band.
Ainda assim, Nobre avalia que a atual campanha pode representar um "divisor de águas" na forma como a esquerda enxerga o papel das redes na política. "A impressão que eu tenho é que a consciência (na esquerda) do grau de organização da extrema-direita está chegando de uma maneira como não tinha chegado antes", diz. O estudo aponta que o bolsonarismo se tornou um movimento que não depende da figura de Jair Bolsonaro ou de sua família para existir, embora a família hoje lidere essa estrutura — que, segundo ele, pode vir a ser ocupada por outras lideranças, como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).
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