Mulheres conquistaram o voto há 94 anos, mas enfrentam ameaças para fazer política
Quase um século após conquistarem o direito ao voto, as mulheres brasileiras seguem enfrentando ameaças de morte, violência sexual, racismo e intimidação para ocupar espaços de poder. Nas eleições de 2026, elas foram vítimas de mais da metade dos episódios de violência política documentados por organizações de direitos humanos, embora representem cerca de um terço das candidaturas.
O direito de votar foi assegurado em 24 de fevereiro de 1932, quando o Código Eleitoral reconheceu a possibilidade de as mulheres votarem e serem votadas, e passou a integrar a Constituição em 1934. A conquista foi resultado de décadas de mobilização do movimento sufragista, com destaque para Bertha Lutz, que ajudou a fundar a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Antes disso, o Rio Grande do Norte teve experiências pioneiras: em 1927, Celina Guimarães Vianna se alistou como eleitora em Mossoró, e, no ano seguinte, Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes. As diferenças nas regras de obrigatoriedade do voto entre homens e mulheres só foram superadas pelo Código Eleitoral de 1965.
Hoje, as mulheres são 52,84% do eleitorado, mas correspondem a aproximadamente um terço das candidaturas. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os processos relacionados à violência política de gênero passaram de 15, em 2022, para 177 até setembro de 2026 — crescimento superior a 11 vezes em quatro anos. Os números se referem a processos encaminhados à Justiça Eleitoral, não necessariamente a condenações definitivas. Levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global identificou 134 episódios de violência política durante a campanha até o primeiro turno, em 4 de outubro. Desse total, 70 tiveram mulheres como vítimas, o equivalente a 52,2%. Entre os 102 episódios direcionados a candidatos, 60 atingiram mulheres, ou 58,8% dos casos.
Um dos casos mais recentes envolve Ana Elisa Santos Silva (PT-MG), de 21 anos, eleita deputada federal com 524.219 votos — a mulher mais votada da história de Minas Gerais para a Câmara e a deputada federal mais jovem já eleita no país. Segundo denúncia apresentada pela própria parlamentar à Polícia Civil, ela recebeu mensagens com ameaças de morte e violência sexual, além de ataques racistas e exposição de dados pessoais. Em uma das mensagens divulgadas, o remetente afirmava integrar a Ku Klux Klan e manifestava intolerância à presença de mulheres negras em posições de poder — alegação feita pelo próprio autor, sem comprovação de vínculo efetivo com a organização. Diante das ameaças, o partido contratou segurança para a deputada, que também relatou ter desativado temporariamente sua conta no X devido à frequência dos ataques.
Os dados do Ligue 180 mostram que a violência política também tem recorte racial. Entre janeiro e agosto de 2026, foram registradas 1.564 denúncias de violência política contra mulheres; 842 envolveram mulheres pretas e pardas, mais de 53% do total, e 590 (37,72%) envolveram mulheres brancas. As ocorrências incluem ameaças, discriminação, difamação, racismo, ataques à vida privada e constrangimentos. O TSE alerta que ameaças e agressões podem produzir efeito coletivo, desencorajando outras mulheres a ingressar na política.
Esta matéria foi publicada primeiro em Pragmatismo Político e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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