Onde cada árvore esconde um “inimigo”: como a paranoia se aprofundou na China
Um relato publicado pelo New York Times descreve como o aparato de segurança chinês se tornou mais amplo, intrusivo e tecnológico nas últimas décadas, a ponto de transformar a rotina de moradores e visitantes. O texto narra a experiência de um jornalista que retornou ao país em setembro do ano passado para uma estadia de seis meses, após ter estudado chinês clássico entre 1980 e 1981 e trabalhado como correspondente entre 1987 e 1991.
Na província de Shanxi, no norte do país, o autor participou de um roteiro de visitas a templos e fábricas organizado pelo China Daily, veículo em língua inglesa ligado ao Partido Comunista Chinês. O grupo, formado em grande parte por influenciadores estrangeiros, foi instruído a se alinhar atrás de uma faixa e gravar uma mensagem entoando "China incrível, Shanxi incrível". Ele recusou-se a participar. Mais tarde, recebeu uma mensagem por WeChat de um velho amigo de Pequim, advogado, informando que agentes da segurança do Estado haviam aparecido à sua porta e ordenado o cancelamento do encontro que os dois planejavam.
O episódio, segundo o relato, contrasta com o encantamento inicial diante dos trens de alta velocidade, das cidades ultramodernas e do entusiasmo pelo futuro. O amigo recorreu a um provérbio chinês para descrever a paranoia do aparato de segurança: "Todo arbusto e toda árvore parecem esconder um soldado inimigo". O texto afirma que a caça a espiões se intensificou desde que Xi Jinping assumiu o poder em 2012, com restrições ao fluxo de informações e o fortalecimento da chamada Grande Muralha Digital.
O relato cita ainda sinais cotidianos de vigilância. Em um parque de Xangai, uma placa oficial dizia que "combater traidores e proteger-se contra espiões começa por nós", ao lado de um telefone para denúncias. No trajeto de cerca de 150 metros entre o apartamento do autor e a estação de metrô mais próxima, ele contou mais de 30 câmeras voltadas para pedestres. A estação também tem inspeção de segurança com scanners para todas as bolsas. Segundo o texto, a maior parte da vigilância hoje é feita por sistemas de inteligência artificial, e leis chinesas permitem que dados de usuários de aplicativos como o WeChat sejam compartilhados com as autoridades.
O autor recorda que, quando trabalhou na China nos anos 1980, jornalistas eram seguidos por homens com bolsas e câmeras — prática que continua, agora com celulares e óculos inteligentes. Ele próprio foi expulso do país em 1991 após obter documentos internos do Partido Comunista. O relato observa que, durante toda a estadia, nenhuma das centenas de chineses com quem conversou mencionou o nome de Xi Jinping em voz alta, e que estrangeiros também evitavam fazê-lo, apontando discretamente para o teto. Ainda assim, o texto registra reclamações frequentes sobre a economia, especialmente em Hainan, onde o boom imobiliário perdeu força.
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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Por Redação