Os protestos em massa em Madri provocados por despejo de idosa de 87 anos de apartamento alugado
Milhares de pessoas foram às ruas no centro de Madri no fim de semana para protestar contra o despejo de uma idosa de 87 anos do apartamento onde vivia como inquilina, episódio que expôs a crise de moradia na Espanha. Segundo números do governo, cerca de 25 mil pessoas se manifestaram no sábado (26/09) na capital, e aproximadamente 500 acamparam na Puerta del Sol, uma das praças mais movimentadas da cidade.
Os manifestantes montaram barracas em frente à sede do governo regional de Madri e anunciaram a intenção de permanecer no local até que as autoridades atendam às reivindicações sobre habitação. Com faixas como "Todos somos Maricarmen", "Expropriar os rentistas" e "Ação direta e ocupação", além de bandeiras da Palestina e símbolos de sindicatos e movimentos, os participantes organizaram assembleias, oficinas, discursos e apresentações musicais. As críticas se dirigem ao governo nacional e às autoridades regionais e municipais.
O estopim foi o despejo de María del Carmen Abascal, conhecida como Maricarmen, que teve de deixar na quarta-feira passada o apartamento em Madri onde vivia de aluguel havia sete décadas. Os tribunais consideraram encerrado o contrato de 1956 que ela havia herdado dos pais e deram razão à Urbagestión, empresa proprietária do imóvel, que buscava recuperá-lo.
As mobilizações ocorrem em um momento de alta dos preços de compra e aluguel de imóveis na Espanha, especialmente nas grandes cidades. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, os preços subiram 12,2% na comparação anual no segundo trimestre de 2026 e 12,9% na Comunidade de Madri. O quadro coincide com a escassez de oferta: entre 2021 e 2025 foram construídas 750 mil moradias a menos do que o necessário para atender à demanda, segundo dados do Banco da Espanha.
O Sindicato dos Inquilinos de Madri defende contratos por prazo indeterminado ou renovação automática, congelamento dos preços dos aluguéis, proibição de despejos sem oferta de moradia alternativa e punição ou proibição de aluguéis por temporada e por quartos, além da expropriação de imóveis de empresas e fundos de investimento que chama de "fundos abutres". Alguns economistas questionam as propostas e sustentam que aumentar a oferta é o único remédio para a escassez, alertando que limitar aluguéis e impedir a recuperação de imóveis pode agravar a situação. Um estudo do Banco da Espanha de 2020 já apontava que tetos de preços podem baratear contratos regulados no curto prazo, mas também reduzir a oferta, piorar a manutenção e encarecer as moradias fora desses limites.
O presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que trabalha para levar um decreto sobre moradia à reunião do Conselho de Ministros da próxima terça-feira que responda a parte das demandas. Como governa em minoria, pediu publicamente esforço de outros grupos parlamentares para aprovar o decreto, cujo conteúdo continua em negociação. A vice-presidente Yolanda Díaz, da legenda de esquerda Sumar, apoiou a mobilização e pediu medidas contra os fundos imobiliários. A porta-voz do Sindicato dos Inquilinos, Alicia del Río, advertiu no domingo que o acampamento continuará caso o decreto não inclua contratos por prazo indeterminado, segundo a agência EFE, e a organização pediu às centrais CCOO e UGT que convoquem greve geral caso a norma não seja aprovada.
O Partido Popular (PP), principal força de oposição, de centro-direita, apresentou propostas alternativas, como eliminar as áreas onde os aluguéis podem ser limitados e ampliar garantias para facilitar a compra de imóveis por jovens. A Prefeitura de Madri, governada pelo PP, criticou o acampamento, acusou o governo central de "omissão de funções" e pediu o restabelecimento da normalidade na Puerta del Sol, questionando o fato de o protesto ter continuado além das condições autorizadas. Madri não foi a única cidade com protestos por moradia: Barcelona, Alicante e Santiago de Compostela também registraram mobilizações após o despejo de Maricarmen. Segundo a imprensa espanhola, protestos foram convocados em 40 cidades do país para exigir medidas contra a alta dos aluguéis.
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Por Redação