Setor de biocombustíveis pode tornar o Brasil na “Opep da energia verde”?
O desenvolvimento da bioenergia no Brasil pode representar não apenas uma garantia de soberania energética futura, mas também a chance de o país se consolidar como um grande player global da transição energética. A avaliação foi feita durante o painel "Biocombustíveis e Transição Energética", realizado no Global Agribusiness Festival (GAFFFF), em São Paulo.
No evento, Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Grupo Potencial, cunhou a expressão "Opep da energia verde" ao se referir ao potencial brasileiro. Para que essa projeção se concretize, ele recomendou que o biocombustível nacional seja tratado como "uma política de Estado" e não apenas como uma lei a cumprir. "O Brasil precisa garantir a soberania da sua matriz energética, não pode depender de produto [importado]. Temos o DNA para a produção de energia verde", afirmou.
Hammerschmidt sugeriu que o atual cenário de crise de combustíveis no exterior seria um momento oportuno para o Brasil antecipar a mistura de 20% do biodiesel no diesel, prevista para 2030. "O momento é emergencial. Em alguns lugares no Brasil tem falta de diesel hoje", disse. Ele destacou que as 60 indústrias de biodiesel do país têm capacidade instalada de 17 bilhões de litros e produção de 10 bilhões de litros, o que representa um excedente de 7 bilhões. Segundo ele, a escassez do diesel deve persistir por um bom tempo, já que parte do parque de refinarias da Rússia foi destruída por ataques da Ucrânia, com recuperação incerta pela continuidade da guerra. Plinio Nastari, presidente da DATAGRO, completou o cenário ao mencionar eventuais proibições de exportação do combustível pelos Estados Unidos.
O deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), presidente da Comissão de Transição Energética e Hidrogênio Verde da Câmara dos Deputados, informou que já há R$ 289 bilhões em investimentos cadastrados a partir da Lei do Combustível do Futuro, o novo marco regulatório do setor.
Os participantes do painel reforçaram que a transição energética não deve ser tratada como substituição de combustíveis fósseis por renováveis, mas como uma adição. "É uma adição energética. O aumento do consumo com a transição abre uma oportunidade para os biocombustíveis. E chegou num ponto que dá para ver além do nosso mercado interno", disse Mário Campos, presidente executivo da Associação da Indústria da Bioenergia e do Açúcar de Minas Gerais (SIAMIG Bioenergia). Ele citou oportunidades em áreas como o Combustível de Aviação Sustentável (SAF) e a substituição do bunker marítimo por derivado do etanol, além do uso de biometano no transporte terrestre, e lembrou que um terço da matriz brasileira está ligada à bioenergia.
Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), afirmou que o mundo vive um momento de "evolução energética" e que o setor de petróleo também tem cumprido papel na descarbonização, destacando a tecnologia da Petrobras de reinjetar CO2 na reserva após a extração de óleo e gás. Segundo suas contas, desde o início da exploração do pré-sal, em 2006, a Petrobras impediu que o equivalente a 88 milhões de toneladas de CO2 fossem para a atmosfera. Ele defendeu que o Brasil olhe para sua vocação de potência não só na produção de alimentos, mas também de energia.
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Por Redação