4 pontos para entender a crise de banco no Paraguai que derrubou Santiago Peña
O colapso do Ueno Bank
O Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou em 3 de novembro o início do processo de dissolução do Ueno Bank, depois de constatar que o índice de solvência da instituição — indicador que mede a capacidade de absorver perdas — havia caído para menos da metade do mínimo exigido. A decisão surpreendeu o mercado: semanas antes, o banco ainda era apresentado como um dos grandes casos de sucesso do sistema financeiro paraguaio.
Fundado como uma pequena financeira especializada em tecnologia, o Ueno se transformou em banco no fim de 2023 e cresceu rapidamente. Em setembro, afirmava ter mais de 3 milhões de clientes em um país de 6,5 milhões de habitantes e processar mais de 3 milhões de transações por dia. A instituição administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, entre eles fundos do Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões. O colapso deixou milhões de clientes sem acesso às suas contas.
Pressão política e renúncia
A crise atingiu os mais altos escalões do poder. O presidente Santiago Peña e o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo Spalding, passaram a ser questionados por vínculos antigos com o banco e seu grupo empresarial. Parlamentares da oposição intensificaram as tentativas de destituir Peña, a quem responsabilizam pelo colapso, acusando-o de conflito de interesses, de permitir o uso indevido de fundos de pensão e de encobrir irregularidades na condução da crise bancária.
Nesta quinta-feira (5/11), a Câmara dos Deputados analisaria o pedido de denúncia contra o presidente. Em um revés para o governo, Horacio Cartes, ex-presidente do Paraguai e líder do governista Partido Colorado, anunciou que a legenda apoiaria o impeachment. Diante do cenário, Peña renunciou em vídeo publicado nas redes sociais, evitando ser alvo do processo. Ele pediu desculpas à população e disse que decidiu deixar o cargo pensando na estabilidade do país, na paz social e na preservação das instituições democráticas.
Comparação com o caso brasileiro
O episódio vem sendo comparado, no Brasil, ao do Banco Master, liquidado pelo Banco Central brasileiro em novembro de 2025. Nos dois casos, bancos que cresceram rapidamente em poucos anos atraíram grandes volumes de recursos e acabaram no centro de questionamentos sobre operações financeiras, investimentos de fundos de previdência e relações com o poder público. As estratégias de captação, porém, eram distintas: o Ueno apostou na abertura digital de contas e em descontos, enquanto o Master atraiu investidores com CDBs de remuneração acima da média do mercado.
Para Orkun Saka, pesquisador de economia financeira da City St George's, da Universidade de Londres, o caso vai além da má gestão de uma instituição. Segundo ele, o Banco Central já havia alertado, meses antes do colapso, para empréstimos excessivos concedidos pelo banco a empresas ligadas a seus próprios controladores, mas os recursos públicos continuaram chegando. "É um sistema em que o banco, o órgão regulador e a Presidência estavam tão estreitamente ligados que nenhum deles parecia capaz de impor limites aos outros", afirmou à BBC Mundo.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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