A guerra cultural entre China e Japão ganha um novo capítulo na TV
A pressão da China contra o Japão, que já atingiu setores como minerais críticos, turismo e frutos do mar, agora se volta para a produção cultural. O alvo mais recente é a série de televisão japonesa “Vivant”, uma das mais populares do país, que mistura tramas de espionagem e ação.
Pequim afirma que a atração, que apresenta uma agência fictícia de inteligência chinesa chamada “Xinxi” como antagonista, promove uma visão negativa da China. A segunda temporada, lançada em julho, inclui cenas de agentes chineses torturando operativos japoneses. Na primeira temporada, o país inimigo não era identificado. “Essa série de televisão revela mais uma vez que existe uma força no Japão que tenta usar produtos culturais para difamar a China e espalhar sentimentos anti-China”, afirmou Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, em coletiva de imprensa em Pequim.
A reação contra “Vivant” começou quando a emissora estatal CCTV condenou a série em publicação nas redes sociais. A pressão se intensificou a ponto de a Sanrio, gigante japonesa do entretenimento responsável pela Hello Kitty, anunciar o cancelamento de uma parceria de produtos licenciados com a série. A China é um dos mercados de crescimento mais acelerado da Sanrio, que faturou cerca de US$ 200 milhões no país no ano fiscal encerrado em março — quase o dobro do registrado no ano anterior. Em comunicado, a companhia informou que concluiu que “certos conteúdos associados a essa colaboração não estão alinhados com a filosofia corporativa da Sanrio”.
Os criadores da série afirmam que não pretendiam alimentar tensões geopolíticas. A TBS, emissora responsável pela produção, declarou que “Vivant” é “completamente fictícia”. “A principal premissa é que ela não degrada nenhum país em particular”, afirmou Masamine Ryuho, presidente da rede, durante coletiva. A série, lançada em 2023, gira em torno de uma operação fictícia de inteligência chamada “Beppan”, ligada às Forças Armadas japonesas.
As críticas chinesas ocorrem em meio a um esforço mais amplo para punir o Japão por declarações feitas no ano passado pela primeira-ministra Sanae Takaichi, que sugeriu que o país poderia intervir militarmente caso a China atacasse Taiwan. Desde então, Pequim reduziu as exportações de terras raras para o Japão, incentivou turistas a evitarem o país e ampliou patrulhas militares nos mares próximos ao território japonês. Takaichi, crítica declarada da China, manifestou apoio à série e afirmou no Parlamento que grava religiosamente os episódios e esperava maratonar a segunda temporada durante o feriado de Ano-Novo.
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