Assustado com o dólar? Gestores explicam o que fazer com o investimento lá fora
A disparada do dólar na semana seguinte à eleição presidencial recolocou para o investidor uma questão que costuma ficar de lado em períodos de calmaria: quanto do patrimônio deve estar na moeda americana. Gestores e casas de investimento internacional ouvidos pelo InfoMoney afirmam que essa fatia precisa sair de um plano de longo prazo, e não do humor do pregão, mas divergem sobre a dose ideal.
O gatilho foi o primeiro pregão após a reeleição do presidente Lula, na segunda-feira da semana passada. O dólar, que havia fechado abaixo de R$ 5 na sexta-feira anterior, subiu a R$ 5,40, na quinta maior alta desde o Plano Real. A pressão continuou e, na sexta-feira, a moeda americana fechou a R$ 5,44, a maior cotação de 2026. Para Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, o foco não deve ser o câmbio: na conta dele, o S&P 500 rendeu cerca de 79% em dólares nos últimos cinco anos, ou 12,3% ao ano. "Não vai ser um dólar 1% mais barato ou mais caro que fará diferença", diz. Luis Ferreira, CIO para as Américas do EFG Bank, concorda e avalia que uma cotação acima da de antes da eleição não basta para concluir que o dólar esteja caro.
Ian Cao, CIO da Gama Investimentos, vê o risco do outro lado. Quem corre para o câmbio movido pelo susto está fazendo um trade, e não um investimento, afirma. Ele lembra que a moeda chegou a R$ 5,60 durante o pregão do dia 26, acima do nível em que fechou a semana. "Quem foi no pânico já está tomando um belo prejuízo." Sobre quanto manter lá fora, a Nomad trabalha com um intervalo de 20% a 40% do portfólio total para o investidor moderado. Cao fala em piso e diz que menos de 20% no exterior "está errado quase por definição", já que, em simulações com dados passados, carteiras com ao menos essa fatia teriam se saído melhor em praticamente qualquer cenário. A partir daí, o percentual pode subir para 50% ou 80%, conforme a sofisticação do investidor. Ferreira é mais reticente com fórmulas: para ele, o perfil moderado, sozinho, não define quanto levar para fora, porque a conta depende de objetivos, liquidez, prazo e capacidade de suportar perdas. Uma faixa de 25% a 50% do patrimônio financeiro investível pode ser discutida para determinadas famílias, mas sem funcionar como regra geral.
Qualquer dessas faixas está muito acima do que o brasileiro tem hoje. Estudo do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGVcef) publicado em setembro aponta que apenas 6,3% do patrimônio declarado ao Imposto de Renda está no exterior. O trabalho retoma uma estimativa anterior do próprio centro, segundo a qual ao menos 16% deveriam estar fora do país para neutralizar o efeito do dólar sobre o consumo, mas trata o percentual como ponto de partida, e não como recomendação. Para Gustavo Farhat, vice-presidente executivo e diretor-geral do Sunstate Bank, o número revela forte concentração patrimonial no país. "Quando praticamente todo o patrimônio está exposto ao Brasil, o investidor assume simultaneamente risco econômico, fiscal, político, regulatório e cambial de um único país", afirma. A XP, em relatório publicado no dia 26, também chama a diversificação internacional de "componente estrutural" das carteiras e defende exposição offshore construída de forma gradual.
Sobre o ritmo de entrada, os especialistas evitam receitas prontas. Shahini diz que aportes mensais dão mais conforto psicológico, por diluir o preço médio, e que adiar demais à espera da melhor cotação não é o ideal. Ferreira afirma que o escalonamento não garante preço melhor, mas organiza a execução, enquanto Cao recomenda começar com pouco. Os recursos podem vir de um rebalanceamento: se o alvo é o piso de 20% e a carteira está abaixo disso, faz sentido reduzir ativos brasileiros em favor dos internacionais, exemplifica Shahini. Ferreira ressalva, porém, que o tombo da Bolsa no dia 26, sozinho, não deveria motivar a venda de ações brasileiras. Para ele, o problema não é começar a diversificar durante a crise, mas "deixar a urgência substituir o planejamento".
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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