Bukele, de El Salvador, pode ser o salvador do Haiti?
O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, enviou mais de 2.000 soldados ao Haiti nesta semana, com respaldo do governo de Donald Trump, após o sequestro de quatro militares salvadorenhos que integravam uma força internacional apoiada pelas Nações Unidas. A operação é classificada por especialistas como uma das maiores mobilizações militares bilaterais já realizadas na ilha e ocorre fora do escopo de uma missão da ONU.
Em publicação em crioulo na rede social X, Bukele afirmou que vai "dar uma lição às gangues" e disse que a ação "não é uma operação contra o povo haitiano, nem uma invasão do Haiti". Ele também comparou as crises dos dois países: "Nós passamos pelo mesmo sofrimento que o Haiti atravessa hoje. Mas conseguimos escapar dele." O envio ocorre após uma missão apoiada pela ONU, a Força de Supressão de Gangues, ter passado um ano tentando reunir contingente semelhante. A força conta hoje com cerca de 2 mil dos 5.500 soldados prometidos, e sua unidade de helicópteros é operada por salvadorenhos.
Os quatro militares sequestrados atuavam como técnicos de aviação e foram atacados ao atravessar uma área dominada por gangues. Restos mortais encontrados na semana passada ainda não tiveram identificação confirmada. Segundo uma autoridade americana que falou sob condição de anonimato, Trump conversou com Bukele na terça-feira e manifestou apoio aos esforços para localizar e resgatar os desaparecidos.
Especialistas temem que a abordagem sem concessões adotada por Bukele no combate a grupos armados resulte em grande número de vítimas civis. "Os riscos e o que está em jogo são incrivelmente altos", afirmou Romain Le Cour, diretor do Observatório do Haiti da Global Initiative Against Transnational Organized Crime. Para ele, Bukele e suas tropas "estão se tornando o veículo de uma nova forma de intervenção, mais direta e menos limitada por regras multilaterais". Jake Johnston, pesquisador do Center for Economic Policy Research, afirmou que "no papel, isso parece um pesadelo de coordenação" e alertou para o risco de que o aumento das operações de segurança provoque "muita morte e destruição" sem enfrentar o ecossistema mais amplo da violência.
O primeiro-ministro haitiano, Alix Didier Fils-Aimé, divulgou nota saudando o envio das tropas e expressando solidariedade aos militares salvadorenhos e a suas famílias. O Haiti enfrenta níveis extraordinários de violência de gangues há pelo menos cinco anos. Seu último presidente eleito foi assassinado em 2021, e desde então pelo menos 22 mil pessoas foram mortas. Em 2024, gangues rivais se uniram para atacar instituições governamentais, e bairros inteiros foram esvaziados. A última mobilização militar estrangeira no Haiti fora de uma missão oficial da ONU havia ocorrido em 2004, segundo Johnston, que também classifica a operação como a maior de El Salvador desde a Guerra do Futebol contra Honduras, em 1969.
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentarPor
Redação