Covid, subprime e 11 de Setembro: pós-eleição de Lula se junta a quedas históricas
O Ibovespa encerrou a semana com queda de 18,12% e entrou no ranking das quatro maiores baixas semanais da Bolsa brasileira neste século. O recuo coloca o período pós-eleição de 2026 ao lado de três episódios marcados por choques profundos nos mercados: a crise financeira global de 2008, a pandemia de Covid-19 em 2020 e os ataques de 11 de Setembro de 2001.
A maior perda semanal do século ocorreu em 10 de outubro de 2008, quando o índice acumulou baixa de 20,01%, em meio à crise do subprime. Na semana encerrada em 20 de março de 2020, o Ibovespa recuou 18,88% com o avanço da pandemia. Em 14 de setembro de 2001, a perda semanal também foi de 18,12%, após os atentados terroristas nos Estados Unidos. Os economistas ouvidos apontam origens distintas para cada movimento: em 2001 e 2008, a pressão veio de crises iniciadas no exterior e de uma onda global de aversão ao risco; em 2020, a incerteza sobre a duração e os efeitos econômicos da pandemia dominou o mercado.
No episódio atual, a avaliação é de que a queda deve ser analisada a partir da forte valorização que a antecedeu. Após o primeiro turno, investidores passaram a atribuir maior probabilidade à vitória de Flávio Bolsonaro e montaram posições na expectativa de uma política econômica mais voltada à consolidação fiscal. O Ibovespa chegou a superar os 209 mil pontos em outubro. Com a vitória de Lula, essas posições começaram a ser desmontadas rapidamente. Na segunda-feira (26), o índice caiu 13,88% e a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde a pandemia.
Para Rafael Cagnin, diretor-executivo do IEDI, a diferença em relação aos episódios anteriores está na natureza do movimento. “Foi mais uma reversão de patamar nas três crises anteriores. Agora, nessa questão do Lula 4, me parece não ser uma reversão, mas uma correção de expectativas”, afirma. Segundo ele, houve primeiro uma expectativa excessivamente favorável ao cenário projetado antes do segundo turno e, depois do resultado, uma correção rápida dessas posições. O economista observa que, após a queda, o Ibovespa voltou a níveis próximos dos registrados meses antes do avanço mais forte do chamado trade eleitoral.
Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e atualmente no Policy Center for the New South, identifica nos quatro episódios a presença do overshooting — movimento muito intenso dos preços dos ativos após mudança nas expectativas dos investidores. No caso atual, ele relaciona o movimento ao aumento do prêmio de risco e à menor probabilidade, na avaliação do mercado, de implementação de um programa de correção fiscal. As preocupações fiscais também estiveram entre os fatores que mantiveram o Ibovespa pressionado ao longo da semana.
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