Do caipira ao agronejo: como a música sertaneja se tornou a mais ouvida do Brasil contemporâneo
Panda é o nome artístico de Jonathan Scarello dos Anjos, voz do hit sertanejo mais ouvido atualmente no Brasil, "Eu Te Seguro", segundo o mais recente levantamento da Pró-Música Brasil, entidade representativa do mercado fonográfico nacional, com base na soma de reproduções em plataformas de streaming. O sucesso, porém, está longe da música caipira que começou a ser gravada na virada dos anos 1920 para os 1930.
Segundo o historiador Gustavo Alonso, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autor do livro "Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira", os exemplos que sucedem cada fase do gênero são "modernizadores no sentido da antropofagia cultural, de incorporar valores e músicas de outras searas, de outras origens". A especialista Gisele Jordão, coordenadora do curso de cinema e audiovisual da ESPM, afirma que houve "uma transformação estrutural que acompanhou o processo de modernização e o deslocamento do meio rural para o consumo urbano".
O marco fundador do gênero como produto de consumo de massa é a primeira gravação de uma canção do segmento, em 1929: "Jorginho do Sertão", composição do jornalista e folclorista Cornélio Pires a partir de fragmentos de causos populares, na voz da dupla Mariano e Caçula. "Nenhuma gravadora queria gravar música caipira. Cornélio Pires alugou um estúdio e pagou a prensagem do próprio bolso", destaca a pesquisadora Anita Carvalho, fundadora da escola Music Rio Academy. Para ela, trata-se do "primeiro lançamento independente da história da música brasileira".
O violeiro e pesquisador Ivan Vilela, professor da USP e autor do livro "Cantando a Própria História: Música Caipira e Enraizamento", divide o sertanejo em cinco grandes fases. A primeira vai da gravação de Mariano e Caçula até a década de 1940, quando a radiodifusão ajudou no "re-enraizamento dos migrantes que trocavam o campo pelas cidades grandes" e surgiu a profissionalização dos cantores. A segunda fase, já difundida pelo rádio, tem como maior nome a dupla Tonico & Tinoco, que, segundo Vilela, vendeu cerca de 150 milhões de discos. "Somados todos os formatos, são a dupla que mais vendeu discos no mundo", afirma.
Nos anos 1960, o mercado fonográfico percebeu que os novos ouvintes eram filhos de migrantes já nascidos nas grandes cidades. "Para eles, foi criada uma música que juntava vertentes da Jovem Guarda com a música caipira", conta Vilela. A primeira dupla desse subgênero foi Léo Canhoto & Robertinho. Segundo o pesquisador Leandro Valentin, doutor pela Unesp, tratou-se de "uma tentativa de modernização do sertanejo".
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Por Redação