França caminha para uma possível crise da dívida e acende alerta para o mundo
A França se tornou o epicentro europeu da turbulência nos mercados de títulos, em um cenário que combina protestos nas ruas e desconfiança crescente dos investidores sobre a capacidade do país de administrar sua dívida. Na quinta-feira, pela segunda vez em uma semana, estudantes do ensino médio e seus apoiadores foram às ruas em diversas cidades francesas para exigir mais professores e a reforma de prédios escolares deteriorados.
O pano de fundo dos protestos é o aumento das taxas de juros, que expõe a vulnerabilidade de países com níveis elevados de endividamento e déficits persistentes. Quando os governos gastam mais para pagar a dívida, sobra menos dinheiro para outras prioridades, como melhorar escolas, construir moradias ou cortar impostos — o que pode empurrar eleitores frustrados para as ruas ou para partidos populistas.
Nesta semana, o rendimento dos títulos franceses de 10 anos chegou perto de 5%, a taxa mais alta desde 2002. O spread entre os títulos de 10 anos da França e da Alemanha, que mede o prêmio exigido pelos investidores para deter dívida francesa em vez de títulos alemães, atingiu o maior patamar desde 2012. Investidores passaram a exigir retornos maiores para emprestar à França do que à Itália e à Grécia, países que durante muito tempo foram vistos como os maiores problemas fiscais da Europa.
“Essas altas nos rendimentos dos títulos têm implicações muito reais”, disse Mahmood Pradhan, pesquisador associado da Bruegel, centro de estudos sediado em Bruxelas, e ex-diretor-adjunto do departamento europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em um cenário extremo, a situação pode se transformar em uma espiral autorrealizável: políticos fazem mais promessas para agradar cidadãos insatisfeitos, o que leva a mais endividamento e assusta investidores, que passam a exigir juros ainda maiores para continuar comprando títulos públicos.
Na França, o pagamento de juros já representa uma das maiores despesas do orçamento público e pode ultrapassar 90 bilhões de euros no próximo ano, superando os gastos previstos com defesa e educação, segundo o Ministério das Finanças francês. Emmanuel Moulin, presidente do Banco da França, disse recentemente ao Financial Times que o país corre o risco de ser “estrangulado pelos juros” se não melhorar suas contas públicas. A dívida francesa já equivale a quase 120% do Produto Interno Bruto (PIB).
O problema não é exclusivo da França. Nos Estados Unidos, os rendimentos dos Treasuries dispararam e desencadearam uma onda global de vendas, enquanto a dívida bruta americana superou US$ 40 trilhões, o equivalente a mais de 120% do PIB. No Japão, os rendimentos dos títulos de 10 anos atingiram os níveis mais elevados em três décadas. Segundo o FMI, a dívida pública global está próxima dos níveis mais altos desde a Segunda Guerra Mundial e caminha para superar 100% do PIB mundial. “As economias avançadas são as maiores infratoras”, afirmou Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI, para quem a situação exige “uma resposta política urgente e abrangente”.
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Por Redação