IA ganha espaço na compra de imóveis, mas afeta o papel dos corretores?
O volume de conversas entre interessados em imóveis e incorporadoras e loteadoras por meio da plataforma de inteligência artificial Morada.ai cresceu 79% nos últimos 12 meses. Apesar do avanço, apenas 1,3% das primeiras mensagens enviadas pelos usuários pedem o atendimento de um corretor, segundo dados da própria empresa.
A base analisada reúne o atendimento operado por inteligência artificial em cerca de 300 incorporadoras e loteadoras clientes da plataforma, mais de 200 delas com operação ativa no último mês. Ao longo de 12 meses, esse universo soma cerca de 2,77 milhões de conversas e aproximadamente 36 milhões de mensagens trocadas com consumidores em canais digitais, como WhatsApp e chat. Os números não representam a totalidade do mercado imobiliário brasileiro, mas indicam como parte dos consumidores já usa ferramentas automatizadas para iniciar a procura por imóveis.
As conversas também revelam o que o comprador busca. Entre os interessados em unidades do Minha Casa, Minha Vida, 19,5% das conversas incluem perguntas sobre financiamento. No médio e alto padrão, o percentual cai para 8,6%, e no altíssimo padrão fica em 8,3%. O comportamento se inverte quando o assunto é o preço do imóvel: aparece em 54,4% das conversas no médio e alto padrão, contra 33,7% no segmento econômico. A localização é um dos principais critérios de busca, presente em 56,4% a 65,9% das pesquisas, dependendo do segmento. Cerca de uma em cada dez interações envolve financiamento ou condições de crédito; dentro desse grupo, 49% mencionam o preço do imóvel, 32% tratam de simulações e 21% abordam o valor da entrada. Referências diretas à Selic ou às taxas de juros aparecem em menos de 1% das conversas.
Para Luís Veloso, cofundador da Morada.ai, os questionamentos refletem uma particularidade do segmento econômico: a necessidade de entender a capacidade financeira do comprador antes de definir qual imóvel ele poderá adquirir. "Minha Casa Minha Vida é uma venda complexa porque você não está vendendo um apartamento, mas sim um crédito imobiliário", afirma. Dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) mostram que 51% das unidades residenciais novas vendidas no segundo trimestre de 2026 estavam enquadradas no programa, o equivalente a 58.392 imóveis. O MCMV também respondeu por 58% dos lançamentos residenciais no período, recorde desde 2019, com 62.129 unidades.
É justamente nesse segmento que a atuação do corretor segue considerada fundamental. Para Renée Garófalo Silveira, CEO da Open e ex-superintendente de incorporação da Plano&Plano, parte do público do Minha Casa Minha Vida sequer considera a possibilidade de comprar um imóvel por desconhecer a própria capacidade de pagamento. "O corretor de imóveis do produto econômico é ainda mais fundamental do que nos produtos de médio e alto padrão, porque ele tem a função de permitir que o cliente descubra sua capacidade de pagamento, dentro da sua renda, e oferecer o produto que melhor se encaixa naquele perfil", avalia. A formação desses profissionais também está em discussão: o curso de Técnico em Transações Imobiliárias (TTI), com carga mínima de 800 horas, é a principal porta de entrada para o registro no Creci. Para Silveira, o TTI é "muito básico, quase que um primeiro passo" e precisaria incorporar temas como empreendedorismo, ferramentas digitais e uso de inteligência artificial.
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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