Mu Carvalho sintetiza memórias em livro com alegrias e tensões de 'quintal' que abriga um vasto mundo musical
O pianista, compositor e produtor musical carioca Mu Carvalho, nome artístico de Maurício Magalhães de Carvalho, reúne em “Memórias sintetizadas” a trajetória iniciada nos anos 1970. A autobiografia, publicada pela editora Memorabilia, tem 258 páginas e narrativa direta, com foco quase jornalístico, segundo a crítica. O texto foi organizado e editado por Paulo Jeibali a partir de relatos escritos por Mu ao longo de dez anos e de conversas virtuais entre os dois.
Filho de mãe pianista e neto de avó também pianista de cinema mudo, Mu entrou na profissão em 1973, aos 16 anos, como integrante do Grupo Semente. Em 1975, foi convidado a integrar as bandas de Jorge Ben Jor e Moraes Moreira. A fama viria em 1977, com a formação do conjunto A Cor do Som, grupo de música inicialmente instrumental e de brasilidade pop que abriu espaço no mercado brasileiro quando este ainda estava fechado para o rock.
No livro, o artista expõe uma visão crítica da discografia da banda. Ele relata que, com a invasão do rock no mercado a partir de 1982, o grupo teve dificuldade para se manter relevante e errou ao tentar seguir essa onda no álbum “As quatro fases do amor” (1983), afastando-se da própria natureza. Mais adiante, narra a pressão sofrida em 1986 na gravadora RCA, quando o diretor artístico Miguel Plopschi sugeriu que o grupo gravasse músicas da dupla Michael Sullivan e Paulo Massadas. Diante da recusa dos músicos, o álbum “Gosto do prazer” (1986) foi lançado com desdém pela gravadora, o que precipitou a dissolução do A Cor do Som em 1987. A volta definitiva aconteceria somente em 2016, após retornos pontuais.
Após o apogeu do grupo, Mu voltou a atuar como sideman, acompanhando artistas como Luiz Caldas, a banda Legião Urbana e Marina Lima, e viveu a incerteza financeira típica de músicos que ficam sem emprego ao fim de cada turnê. Deixou essa situação ao se dedicar à composição de trilhas sonoras, contratado pela TV Globo, onde entrou em 1994 por indicação do irmão, Sérgio Carvalho, e permaneceu por 28 anos. Entre os bastidores relatados está o da novela “Chocolate com pimenta”, de 2003: diante da insatisfação do diretor Jorge Fernando com as propostas para o tema de abertura, Mu pediu autorização ao diretor musical Mariozinho Rocha e compôs o charleston homônimo, letrado por Aldir Blanc e aprovado de imediato. A música se tornou um dos dois maiores sucessos de seu cancioneiro autoral, ao lado de “Sapato velho”, composta na juventude com Claudio Nucci e letrada por Paulinho Tapajós.
O livro, de capa dura, é apresentado por textos do irmão Dadi Carvalho e de Gilberto Gil, entre outros nomes. Mu detalha o processo de criação de cada álbum feito com e sem o A Cor do Som e revisa a discografia solo iniciada em 1985 com “Meu continente encontrado”, desenvolvida ao longo de 40 anos e encerrada, por ora, com “O mundo é o meu jardim”, lançado em 2025.
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