Musical sobre Moraes Moreira poetiza a saga do artista com dramaturgia em cordel e cena eletrizada pelo Carnaval
Quatro meses após a estreia nacional em Salvador (BA), o espetáculo “Moraes musical Moreira” chega ao Rio de Janeiro (RJ), onde fica em cartaz no Teatro Carlos Gomes, de quinta-feira a domingo, até 22 de novembro. Com dramaturgia de Fábio Espírito Santo e direção de Ana Paula Bouzas, o musical poetiza a trajetória de Antonio Carlos Moreira Pires (1947–2020), o Moraes Moreira, cantor, compositor e músico que eletrificou o Carnaval da Bahia ao transformar o tema instrumental “Double morse” (1975) do Trio Elétrico Dodô & Osmar em “Pombo correio” (1977), com seus versos.
A narrativa é estruturada na forma de cordel, gênero literário abraçado pelo artista, projetado em 1972 como integrante fundamental do grupo Novos Baianos, formado no fim dos anos 1960. O mote inicial é o cordel “De cantor pra Cantador” (2018), gravado por Moraes no álbum “SerTão” (2018). Na primeira meia hora, o espetáculo soa mais viajante, com a poesia do cordel travando o desenvolvimento da ação, mas logo a narrativa ganha tração progressiva, até terminar eletrizante e apoteótico, embalada pela brasilidade e pelo espírito folião de grande parte do cancioneiro do artista.
Sem seguir a cartilha dos musicais biográficos, a montagem põe a essência do artista em cena. Rodrigo Sestrem interpreta o Poeta Cantador, que comenta e pontua a ação, como uma versão tropicalista do coro das tragédias gregas. Cris Meirelles é o Vaqueiro do Som, personagem de cordel que simboliza Moraes na travessia de Ituaçu (BA) para Salvador (BA) e, anos depois, para o Rio de Janeiro (RJ), sem perder a Bahia de vista. Entre os dois, Júlia Tizumba dá vida à Musa Música, que interpreta números como “Mulher e cidade – Marília” (Moraes Moreira e Aroldo Macedo, 1981), simbolizando a chegada do poeta a Salvador, onde conhece Luiz Galvão (1937–2022), parceiro fundamental que norteia o repertório dos Novos Baianos.
Com cerca de 40 composições, algumas ouvidas em trechos ou meras citações, o roteiro equilibra hits e músicas pouco conhecidas, caso de “Desabafo e desafio” (1975), tema do primeiro álbum solo de Moraes. A metade final ganha força quando o Trio Elétrico entra em cena, fazendo o Carnaval com faixas como “Chão da praça” (Moraes Moreira e Fausto Nilo, 1978) e amplificando a crítica do pioneiro cantor de trio à industrialização do Carnaval baiano. O texto evidencia que o ponto de partida da obra de Moraes foi o serviço de alto-falante de Ituaçu, que veiculava músicas de mestres como Luiz Gonzaga (1912–1989). Para sublinhar essa conexão, o Rei do baião entra em cena para cantar “Forró do ABC” (1980), parceria com João Santana Filho, o Patinhas.
A direção musical de João Milet Meirelles e Ronei Jorge é reverente ao espírito do som de Moraes, mas insere um toque de pagodão baiano no número final, “Chame gente” (Moraes Moreira e Armandinho Macedo, 1985), sinalizando que sua música segue viva. O elenco reúne ainda Diana Ramos, Gabriel Safini, Luisa Muricy, Mano Leone, Marcos Lopes, Nana Nevez, Ofámirô, Rapha Gouveia e Sabiá, além de Kadu Veiga, que vive um quase caricatural João Gilberto (1931–2019) na execução de “Acabou chorare”.
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