O relacionamento humano em tempos de conexão digital
O contato humano, antes marcado pela presença, pelo olhar, pela escuta, pelo toque e pela conversa, passa, cada vez mais, a ser mediado pelas tecnologias digitais. A avaliação é de Dom Oriolo, bispo da Igreja Particular de Leopoldina (MG), em artigo publicado no site Vatican News.
Segundo o bispo, em outros tempos era comum encontrar pessoas relacionando-se umas com as outras em residências, ruas, no trabalho, no lazer, em pontos de ônibus, supermercados e na Igreja. O contato pessoal, o estar próximo, o escutar, o falar, o tocar e o abraçar faziam parte da vida cotidiana. Nesses encontros, afirma, as pessoas construíam o caráter, a personalidade, a educação e a criatividade, além de evoluírem na capacidade de se relacionar consigo mesmas, com o mundo, com os outros e com Deus.
Dom Oriolo observa que o cenário mudou: já não se encontram com a mesma frequência pessoas simplesmente em contato umas com as outras, mas conectadas a smartphones, tablets e computadores. Ele reconhece que a conexão digital ampliou possibilidades de aprendizado e expressão, aproximou pessoas fisicamente distantes, garantiu acesso rápido à informação e permitiu manter vínculos afetivos com familiares e amigos ausentes. Ao mesmo tempo, sustenta, essa realidade transforma a maneira como as pessoas se relacionam, e os dispositivos móveis se tornaram, para muitos, uma extensão da própria vida, presentes no trabalho, no lazer, na família, na Igreja e nos momentos de descanso.
Na avaliação do bispo, o mundo digital não é apenas uma ferramenta, mas um ambiente que influencia a construção da identidade e dos relacionamentos, ao mesmo tempo em que desafia a redescobrir o valor da presença, da escuta, do diálogo e do encontro com o outro. Ele cita a Sociedade 5.0, centrada no ser humano, em que tecnologia, Internet das Coisas e robótica buscam melhorar a qualidade de vida e facilitar as conexões interpessoais, mas alerta que a habilidade técnica esconde o risco de transformação do funcionamento intelectual e emocional. Segundo ele, a presença onipresente das telas cria barreiras para o aprendizado do amor, da convivência e da partilha, valores que não podem ser ensinados por algoritmos, mas apenas vivenciados no contato humano.
Dom Oriolo defende a chamada vida híbrida ou on-life, que consiste em utilizar os recursos on-line sem perder a vivência e a postura do mundo off-line. Ele pondera que os conteúdos que chegam por meio de algoritmos e criadores de conteúdo são, muitas vezes, saudáveis, e outras vezes prejudiciais, e que as telas frequentemente oferecem informações incertas ou conexões vazias. O algoritmo, escreve, busca padrões, mas não compreende a causa ou o sentido profundo da vida. O bispo cita a Primeira Carta do apóstolo Paulo aos Coríntios — "Eu vos alimentei com leite, não com alimento sólido, porque não éreis capazes" (1 Cor 3,2) — para afirmar que a conexão digital costuma oferecer um alimento líquido e superficial, já que a velocidade de circulação da informação e a personalização de conteúdos impulsionados pela Inteligência Artificial dificultam a distinção entre fatos, opiniões ou conteúdos deliberadamente manipulados.
Concluindo, Dom Oriolo afirma que o amadurecimento humano e espiritual exige a coragem de buscar o alimento sólido, com olhar crítico sobre o que se consome nas telas e o treinamento dos algoritmos para que sirvam à edificação. O ecossistema on-life traz facilidades, mas nenhuma Inteligência Artificial substituirá o toque, a escuta e a vivência em comunidade, escreve. Ele encerra pedindo que as redes sejam usadas com maturidade, promovendo o verdadeiro encontro consigo mesmo, com o outro, com o mundo e com Deus.
Esta matéria foi publicada primeiro em Religião · Vatican News PT e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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Por Redação