Presidente do Paraguai renuncia em meio à crise de um dos maiores bancos do país, que congelou dinheiro de milhões; siga
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5/11) sua renúncia ao cargo em meio à crise de solvência do banco digital Ueno, que congelou recursos públicos e as economias de milhões de cidadãos e derrubou o presidente do Banco Central. A decisão foi comunicada enquanto a Câmara dos Deputados aprovava por unanimidade a abertura de um processo de impeachment contra ele.
O Senado discute neste momento se aceita a renúncia ou se dá prosseguimento ao julgamento político. Senadores do Partido Colorado, legenda de Peña, defendem a aceitação imediata para acelerar a sucessão presidencial e permitir que o governo enfrente a crise. "As famílias afetadas não podem esperar 10, 15 dias ou um mês para saber o que acontecerá em um julgamento político", afirmou o senador Carlos Núñez. A oposição, por sua vez, insiste na continuidade do impeachment para que Peña responda às acusações sem o foro privilegiado que receberia caso a renúncia fosse aceita. "Hoje querem mais uma vez atropelar o Congresso Nacional para aceitar a renúncia de um delinquente e, com isso, dar foro privilegiado a ele", disse a senadora Yolanda Paredes, do Partido Cruzada Nacional.
O Ueno Bank é um dos principais bancos do país e, segundo dados da própria instituição, tem 60% da população adulta paraguaia entre seus clientes. Cerca de 27 pessoas foram acusadas formalmente no caso, entre elas o ex-diretor do banco Miguel Vázquez, que teve prisão preventiva decretada junto a outros cinco ex-diretores. As acusações incluem tentativa de fraude, quebra de confiança, conduta indevida em situações de crise e violação de obrigações. Dezenas de poupadores, investidores e aposentados aguardam saber o que acontecerá com seus depósitos.
Para Orkun Saka, professor de economia financeira da City St George's, University of London, o caso vai além da má gestão de uma instituição. "Um banco pertencente a um único conglomerado empresarial acabou concentrando as economias da maioria dos adultos do país, além de centenas de milhões de dólares de fundos de pensão", disse à BBC Mundo. Segundo ele, o Banco Central já havia alertado meses antes do colapso para "empréstimos excessivos concedidos pelo banco a empresas ligadas aos próprios controladores". "É um sistema em que o banco, o órgão regulador e a Presidência estavam tão estreitamente ligados que nenhum deles parecia capaz de impor limites aos outros", acrescentou.
A renúncia põe em xeque a imagem do Paraguai como uma das economias mais estáveis da América Latina. Peña foi acionista do grupo proprietário do Ueno Bank até o ano passado, e setores da oposição interpretam o episódio como uma disputa entre bancos pelos recursos destinados às aposentadorias. O Partido Colorado, fundado em 1887 e presidido pelo ex-presidente Horacio Cartes, governa o país quase ininterruptamente desde 1947 e já esteve por trás do impeachment que destituiu Fernando Lugo em 2012.
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