Representante do Brasil no Oscar, 'Feito Pipa' amplia imaginário do cinema com Sertão colorido, analisa roteirista
O longa-metragem cearense "Feito Pipa", escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar de melhor filme internacional, propõe um olhar diferente sobre o interior do Nordeste. Em vez de imagens associadas à seca e à pobreza, a produção dirigida pelo cearense Allan Deberton aposta em afeto, cores, memória e música para contar a história de Gugu, menino de 11 anos criado pela avó materna. O filme foi gravado no Ceará.
Em entrevista ao g1, o roteirista André Araújo afirmou que uma das preocupações durante a escrita foi revisitar a forma como o cinema historicamente retrata o Nordeste. "Quando estou escrevendo, sempre me preocupo em atualizar as imagens e os imaginários que o cinema produz sobre o Sertão. No 'Feito Pipa', esse Sertão colorido surge como uma forma de se distanciar daquele Sertão que a gente costuma ver da fotografia alaranjada ou da luz estourada, o Sertão da miséria, o Sertão da seca", disse. Para ele, o colorido se manifesta nas pessoas, nos personagens, na própria fotografia e na identidade de Gugu e Dilma, que se apropriam desse universo lúdico "para serem quem são".
Poucos territórios foram tão revisitados pelo cinema brasileiro quanto o interior nordestino. Ao longo do século XX, a região foi palco de diferentes movimentos e estéticas, de "O Cangaceiro" (1953), de Lima Barreto, aos filmes do Cinema Novo, que transformaram a paisagem sertaneja em símbolo das desigualdades sociais, sobretudo na obra de Glauber Rocha, com destaque para "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964). Para a pesquisadora paulista Eliana Guerra, que faz doutorado em História da Arte na Universidade de Salamanca, na Espanha, o Sertão ocupa posição singular na cinematografia brasileira por ser um território simbólico. Segundo ela, o cinema participa da construção do imaginário sobre a região e, durante muito tempo, determinadas representações associaram esse território à seca, à pobreza, à violência e ao cangaço, mas o cinema brasileiro também foi transformando essas imagens e mostrando que existem muitos sertões.
Nas últimas décadas, cineastas passaram a apresentar novas leituras desse território. Obras como "O Céu de Suely" (2006), de Karim Aïnouz; "Bacurau" (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles; e "Paloma" (2022), de Marcelo Gomes, ajudaram a ampliar o repertório de experiências, paisagens e personagens associadas ao interior nordestino. É nesse contexto que "Feito Pipa" pode ser inserido, segundo Araújo, que também cita "Pacarrete" (2019), estrelada por Marcélia Cartaxo e dirigida por Deberton, como referência próxima.
As filmagens foram realizadas em Quixadá, no Sertão Central cearense, escolhida após pesquisa de locação em todo o estado. A origem da história, porém, nasceu em São Rafael, no interior do Rio Grande do Norte, município parcialmente inundado pelas águas da barragem Armando Ribeiro Gonçalves e onde, em períodos de estiagem, estruturas da cidade velha emergem, entre elas a torre da igreja. "A cidade que reaparece e as memórias que se apagam. Em 'Feito Pipa', a memória é sobrevivência", afirma o roteirista. Em inglês, o filme ganhou o nome de "Gugu's World".
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Por Redação