Seca, turismo e disputa comercial: como o Japão foi da falta ao excesso de arroz
Em 2023, uma combinação de calor extremo e seca prejudicou a safra de arroz do Japão. Um ano depois, os danos se transformaram em uma escassez tão grave que levou à renúncia de um ministro do governo. Já em 2026, o país foi para o extremo oposto: acumulou um excedente recorde de arroz, obrigando o governo a retirar parte da produção do mercado para evitar uma queda ainda maior dos preços. Até mesmo especialistas ainda tentam entender como o Japão passou da escassez ao excesso em apenas dois anos.
“Todos os especialistas ficaram surpresos com essa oscilação”, disse Ryosuke Inoue, pesquisador visitante do programa Japão do CSIS, em Washington, à Fortune. Especialista em política agrícola japonesa, ele afirmou que nem mesmo os analistas previram uma mudança tão brusca. “A diferença entre oferta e demanda existia, mas não era tão grande assim. Isso poderia acontecer também nos Estados Unidos. A diferença é que, lá, a volatilidade dos preços não costuma ser tão intensa.”
Em 2023, temperaturas elevadas e falta de chuvas danificaram as plantações durante a fase de enchimento dos grãos, reduzindo o volume de arroz considerado apto para venda na categoria premium. Ao mesmo tempo, um forte aumento do turismo e episódios de compras por pânico após alertas de terremoto elevaram a demanda. Como resultado, os estoques privados caíram de cerca de 2 milhões para aproximadamente 1,5 milhão de toneladas. A escassez fez o preço de um pacote de cinco quilos de arroz saltar de cerca de ¥2.000 (US$ 13) no início de 2024 para um pico de ¥4.300 (US$ 27) em 2025. Naquele ano, o governo japonês liberou pela primeira vez as reservas estratégicas de arroz criadas em 1995, normalmente destinadas a situações de desastre natural.
Atraídos pelos preços elevados, os agricultores ampliaram significativamente a produção, o que gerou um excesso de oferta. Os estoques privados saltaram de 1,5 milhão de toneladas em 2024 para 2,43 milhões de toneladas em meados de 2026, e o Ministério da Agricultura projeta que esse excedente continuará crescendo ao longo de 2027. Os preços já recuaram para cerca de ¥3.300 (US$ 21) por cinco quilos e podem retornar aos níveis registrados em 2022 e 2023 ou até ficar abaixo deles. Neste mês, o governo comprou de volta 210 mil toneladas de arroz apenas para recompor os estoques emergenciais que havia utilizado durante a crise anterior.
Segundo Inoue, um dos problemas é que o mercado de arroz japonês é pouco transparente. “Muitos distribuidores tentam maximizar seus lucros, e até o governo tem dificuldade para acompanhar como o arroz circula dos agricultores até os consumidores finais”, afirmou. No auge da crise, os reguladores simplesmente não compreendiam plenamente o funcionamento do próprio mercado para agir rapidamente. O país produz praticamente todo o arroz que consome e exporta quantidades mínimas. Mesmo assim, durante a crise de 2025, o então presidente dos EUA, Donald Trump, criticou o fato de o Japão enfrentar escassez enquanto limitava importações de arroz americano. Em um acordo comercial firmado em 2025, o Japão concordou em elevar em 75% as compras de arroz americano.
Outro desafio estrutural é a idade dos produtores rurais. A idade média dos rizicultores japoneses é de 67,7 anos, e apenas 1,2% têm menos de 30 anos. As propriedades também são extremamente pulverizadas: enquanto a Califórnia possui cerca de 1.100 fazendas de arroz ocupando aproximadamente 512 mil acres, o Japão conta com cerca de 500 mil propriedades espalhadas por 3,4 milhões de acres. Para Inoue, o problema maior não é a redução no número de agricultores, mas o destino das terras que eles deixam para trás, muitas em regiões montanhosas, pouco atraentes para novos produtores e caras de recuperar. Ele defende um sistema semelhante ao programa americano Price Loss Coverage, com compensações apenas quando os preços ficassem abaixo do custo de produção, estimado em cerca de ¥2.800 (US$ 18) por cinco quilos.
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentarSobre o autor
Por Redação