'Soberania' no altar: falas de bispos católicos e rumor sobre Nossa Senhora viralizam e viram ativo da campanha de Lula na reta final da eleição
Vídeos de bispos católicos falando sobre a importância da "soberania" do Brasil ganharam circulação nas redes sociais na reta final antes do primeiro turno e aqueceram o debate sobre religião e eleições. Entre os conteúdos divulgados está um trecho de fala do arcebispo emérito de Aparecida, dom Orlando Brandes, na missa de 7 de Setembro deste ano, no qual ele afirma que é preciso "defender a soberania" e que "nenhum poder de fora, seja quem for, deve mandar aqui".
Também viralizou um vídeo publicado na segunda-feira (21/09) com bispos do Amazonas e de Roraima, da Regional Norte 1 da CNBB. Nele, dom Frei Samuel Ferreira, bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus, diz que "é importante a soberania do Brasil, a soberania da nossa Amazônia, a soberania das nossas riquezas e bens", e acrescenta que "a democracia é um bem precioso a ser cuidado e garantido".
Coordenador do Grupo de Análise de Conjuntura Padre Thierry Linard, órgão de assessoramento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Francisco Lima afirmou à BBC News Brasil que não acredita em finalidade eleitoral nas mensagens, mas criticou pronunciamentos isolados durante a campanha. "Toda a fala nesse momento só precisaria ser da CNBB. Uma fala isolada de um bispo isolado pode fazer assimetria com relação aos outros. E a gente não faz isso", disse o bispo de Carolina, no interior do Maranhão. "Isso é perigoso." Segundo ele, integrantes do grupo chegaram a classificar "soberania" como palavra a ser evitada, por sua possível repercussão política.
O sociólogo Alexandre Landim, autor do livro O Deus das urnas: evangélicos e católicos em eleições presidenciais no Brasil, avalia que chama atenção a forma inédita como a campanha da esquerda usa esses vídeos numa disputa religiosa com a direita. "Até então, era uma retórica só da direita, desde 1989, quando evangélicos diziam que o PT fecharia igrejas. Então, a retórica agora é muito parecida, só que está com o sinal trocado", afirma. Para o padre jesuíta Luís Corrêa Lima, professor de teologia da PUC-Rio, as frases estão relacionadas à doutrina social da Igreja e a documentos recentes dos papas Francisco e Leão 14, e o discernimento sobre eventual favorecimento a um candidato cabe aos fiéis.
A discussão envolveu ainda a polêmica sobre o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. O ministro André Mendonça determinou a derrubada de publicações que associam Flávio Bolsonaro a uma suposta articulação para retirar o título, e o tribunal já havia apontado, em análise preliminar, ausência de "suporte fático mínimo" para a alegação. O único projeto de lei com esse objetivo foi apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli (PMDB-MT) e arquivado em 2008, sem registro de participação de Flávio Bolsonaro. A CNBB informou que sua mensagem para o período eleitoral é a publicada aos fiéis em 18 de junho.
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Por Redação