Votos nulos, brancos e abstenções devem ser recorde este ano, aposta autor de livro sobre eleições no Brasil: 'Tem algo diferente desta vez'
O cientista político Jairo Nicolau avalia que a abstenção pode voltar a crescer nas eleições deste ano e atingir o maior nível das últimas décadas. Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ele também acredita que o número de votos brancos e nulos deve aumentar. A aposta aparece em entrevista à BBC News Brasil, na qual o pesquisador afirma que "tem algo diferente desta vez".
Segundo Nicolau, o eleitorado está frustrado com uma campanha marcada pela repetição da polarização entre petismo e bolsonarismo e pelo pouco espaço dedicado ao debate, ofuscado nas últimas semanas pela crise no Supremo Tribunal Federal (STF). "Essa é uma eleição em que as pessoas estão desanimadas com os candidatos que estão aí, e que tem grande chance de aumentar, num nível razoável, a abstenção e os votos nulos e brancos", diz. "Talvez a gente tenha a maior taxa de abstenção nas eleições gerais de 2002 para cá."
O pesquisador pondera, no entanto, que nem toda abstenção representa uma decisão deliberada de não participar da política. Em seu livro O país dividido, publicado em junho pela editora Zahar, ele dedica um capítulo a analisar quem são os eleitores que deixaram de comparecer às urnas nas seis eleições presidenciais entre 2002 e 2022. Os dados mostram que a abstenção não se distribui de maneira uniforme — o que também dificulta prever quem poderia ser mais afetado por uma eventual alta neste ano. "As mulheres comparecem mais, então o comparecimento feminino favorece o Lula. Mas as pessoas de baixa escolaridade comparecem menos. E isso prejudica o Lula", afirma.
Entre os fatores apontados por Nicolau está o custo de não votar, que, segundo ele, ficou menor. Com a facilidade para justificar a ausência e as consequências relativamente pequenas de não comparecer às urnas, o Brasil estaria caminhando, na prática, para uma espécie de voto facultativo. O cientista político cita ainda o envelhecimento do eleitorado — já que o voto é facultativo para pessoas com mais de 70 anos — e o contingente de eleitores que estão fora do domicílio eleitoral, em geral pessoas que mudaram de cidade e não transferiram o título.
Nicolau afirma que não há pesquisa nem estimativa sobre quanto do total de abstenções corresponde a uma decisão política deliberada, mas diz acreditar que esse não seja o grupo mais expressivo. Ele ressalta, porém, que isso pode mudar em uma eleição de baixo interesse e com oferta ruim de candidatos. O pesquisador também chama atenção para o clima diferente deste ano, com propaganda de rua mais tardia e menos conversa sobre política. "Ninguém está falando de política, o que é estranho", diz.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentarSobre o autor
Por Redação