'Bolsonarismo não está derrotado, está disseminado. Basta ver os patrões demitindo funcionários que votaram no Lula', diz filósofo Renato Lessa
O filósofo político Renato Lessa, professor do Departamento de Direito da PUC-Rio, avalia que a derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) não significa o fim do bolsonarismo como fenômeno social. Para ele, o movimento "não está derrotado, está disseminado" — e cita como exemplo patrões que demitem funcionários que votaram em Lula. A declaração foi dada em entrevista à BBC News Brasil.
Lessa afirma que o bolsonarismo puro não reúne 48% dos votos por si só: esse contingente eleitoral só foi canalizado porque, desde 2018, o movimento "colonizou" a direita. Com a ida de Flávio para os Estados Unidos e a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, o campo bolsonarista fica politicamente desorganizado, abrindo espaço, segundo o filósofo, para que a direita democrática se reorganize para além da captura bolsonarista. "Sempre que se fala em autocrítica, é para se referir à esquerda, mas a direita também precisa fazer uma autocrítica. Talvez esse seja o momento", diz.
O filósofo classifica a carta publicada por Flávio após chegar aos EUA como "um delírio completo", com erros e mentiras, e diz que o documento é "um tiro no pé", porque desqualificou o próprio autor como líder mesmo depois de uma votação notável. Segundo Lessa, Flávio perdeu a condição de liderar a oposição, e outros atores tentarão ocupar esse lugar — entre os nomes já especulados por operadores da direita e da extrema-direita estão Michele Bolsonaro e o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Desde 2020, Lessa chama de "homo bolsonarus" o padrão de comportamento que, na sua análise, se espalhou pela sociedade brasileira: um sujeito violento, para quem os adversários são inimigos a serem abatidos e que busca uma liberdade natural como norma do convívio, sem mediação das leis ou convenções. O fenômeno, diz ele, é a "extrema politização" de algo que antes existia de forma não politizada, e só se tornou possível após a ruptura causada pelo impeachment de Dilma Rousseff, entre 2015 e 2016, que interrompeu o aprofundamento democrático iniciado com a Constituição de 1988.
Para o filósofo, o bolsonarismo é um fenômeno inédito na história política brasileira por ter surgido sem herdar traços de dinâmicas do passado — nem mesmo a ditadura militar, entre 1964 e 1985, rompeu totalmente com lógicas anteriores, como as leis trabalhistas. "O que aconteceu de 2019 em diante é apenas destruição", afirma, classificando o movimento como "um fenômeno da categoria de patologia política".
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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