Cantor Rick foi rara voz negra no topo do sertanejo; entenda o apagamento histórico no ritmo
A confirmação da morte do cantor Rick, encontrado nesta terça-feira (22) após um acidente com helicóptero em Santa Catarina, marca a despedida de uma voz histórica da música popular brasileira e lança luz sobre um dado estrutural do sertanejo: Rick era um dos poucos artistas negros a alcançar o estrelato no gênero. O estilo domina rádios e plataformas de streaming há anos, mas os rankings de sucesso são quase totalmente brancos.
É preciso voltar a 1996 para encontrar a última vez que um representante negro figurou no top 10 das rádios com música sertaneja. Naquele ano, João Paulo e Daniel ocuparam a terceira posição. O próprio João Paulo, morto no ano seguinte, enfrentava o preconceito de perto: executivos do mercado chegaram a sugerir que Daniel trocasse de parceiro no início da carreira para formar uma dupla de cantores brancos, sob a justificativa de que a formação faria mais sentido comercialmente.
Rick conhecia essa realidade. Ao lado de Renner, lidou com episódios de racismo. Em um caso relatado por ele, uma fã se recusou a tirar foto com o cantor por não gostar de negros, e o parceiro comprou a briga e recusou o registro. O sertanejo também guardava histórias do amigo João Paulo, entre elas a de um contratante de elite que afirmou que o show não teria sido comprado se ele soubesse da presença de um homem negro na dupla.
Para Luiz Antonio Guerra, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, a ausência de nomes negros no sertanejo é reflexo do apagamento das raízes negras da música caipira. A partir da década de 1930, a intelectualidade paulista e a indústria iniciaram uma modernização que excluiu essas influências do gênero, restringindo o estilo à moda de viola e ao cateretê. Expressões musicais negras foram separadas e associadas exclusivamente ao samba carioca ou à música nordestina. Para o jornalista André Piunti, especialista em música sertaneja, a modernização e a indústria fonográfica estão entre as culpadas pelo embranquecimento do ritmo.
A "modernização" do sertanejo foi sinônimo de embranquecimento estético e mercadológico. Quando o estilo passou a exigir a imagem dos artistas em capas de discos e vitrines, executivos de gravadoras barravam a contratação de pessoas negras. A imposição era tão intensa que ícones absolutos do gênero, como Tião Carreiro, passaram por um clareamento visual nas capas de seus projetos para que o produto fosse melhor aceito nas vendas — o mesmo ocorreu com Cascatinha & Inhana nos anos 1950, quando o público consumia os sucessos sem conhecer o rosto dos intérpretes. Superar essa barreira exige enfrentar um mercado resistente a militâncias, e a única via de ascensão comprovada é o sucesso estrondoso de uma música. Especialistas apontam que a mudança estrutural só ganhará força quando um artista negro furar a bolha com uma faixa de alcance nacional, em dinâmica semelhante à que Marília Mendonça liderou para as mulheres no feminejo. Nomes em ascensão, como Junior Marques, David Henrique e Diogo Henrique, buscam o espaço que João Paulo, Pena Branca & Xavantinho e o próprio Rick abriram a duras penas.
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Por Redação