'Cavalo selvagem nove' não queria ecoar os EUA atuais, mas 'a história se repete com estúpidos no poder'
O diretor e roteirista irlandês Martin McDonagh afirmou que "Cavalo selvagem nove" não foi concebido como um retrato do mundo contemporâneo, mas que, após a conclusão do filme, passou a enxergar nele reflexos das tensões geopolíticas atuais. Em entrevista ao g1, ele citou episódios recentes envolvendo os Estados Unidos e a Venezuela como exemplos desses ecos inesperados.
"Não era para ser um retrato do mundo moderno, mas, depois de pronto, ao assistir com o público – a geopolítica moderna, o que aconteceu com os EUA e a Venezuela, todos esses fatos pareceram emitir um tipo diferente de reflexo", disse McDonagh. "Os ecos de um lugar para o outro estão lá. Talvez porque a história tende a se repetir quando homens estúpidos estão no poder da história."
O longa, em cartaz no Brasil desde quinta-feira (5), acompanha dois espiões veteranos interpretados por John Malkovich e Sam Rockwell. Eles são enviados em uma missão nebulosa que termina em uma viagem existencial pela Ilha de Páscoa, cenário das conhecidas estátuas de cabeças gigantes. Segundo a reportagem, Malkovich aparece como favorito para conquistar seu primeiro Oscar, no papel de um espião da CIA em crise existencial, enquanto Rockwell também deve receber ao menos uma indicação como coadjuvante.
No filme, o equilíbrio entre humor e melancolia aparece em uma das memórias do protagonista sobre um encontro com um líder revolucionário da República Democrática do Congo. Malkovich recorda uma das falas mais sombrias que já lhe despertaram graça: quando Patrice Lumumba diz que, se for morto, a democracia na África será assassinada pelos 50 anos seguintes, e o personagem Chris responde perguntando o que ele acha que estão tentando fazer.
O ator, de 72 anos, relacionou o tema à conjuntura política. "Democracia, como você bem sabe, nesses últimos dias no Brasil e muito antes, é uma coisa muito disputada, difícil, árdua, às vezes violenta, às vezes homicida. Um desafio muito difícil", afirmou. Malkovich disse que não vota desde 1972, quando o democrata George McGovern perdeu a eleição presidencial americana, mas defendeu a importância do arrependimento e da reflexão sobre os erros do passado. "São coisas importantes para sua alma imortal. E eu não sei se este é um país ou uma cultura que apoiam essa visão, provavelmente", completou.
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