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Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita

Por Redação
Atualizado em 18/09/2026 às 13:20 schedule 2 min de leitura visibility 2 visualizações share 0 compartilhamentos (0)
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Lançado em 1970, o filme Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita, do cineasta italiano Elio Petri, ganha nova leitura em texto do colunista Luciano Trigo. Segundo a análise, a obra pertence ao grupo de filmes que esperam décadas até que a realidade lhes devolva atualidade — e não ao dos que envelhecem mal ou ficam presos ao próprio tempo.

A trama acompanha um alto funcionário da polícia, interpretado por Gian Maria Volonté, que assassina a própria amante. Em vez de esconder o crime, ele passa a deixar pistas óbvias de propósito, para testar se subordinados e sistema teriam coragem de investigá-lo e acusá-lo. O protagonista, chamado apenas de dottore, quer saber até onde pode avançar sem que sua posição o proteja.

Conforme o texto, o que falta não é informação: as pistas existem e os investigadores as encontram. Falta a disposição institucional de agir. Diante do próprio chefe, a polícia enfrenta uma dificuldade que nenhuma técnica investigativa resolve — como investigar aquele que tem o poder de determinar quem e o que será investigado.

A análise destaca que Petri transforma um enredo policial em reflexão sobre a natureza da autoridade. O dottore não é apenas um criminoso com proteção institucional: ele incorpora a função pública à própria identidade. O cargo, que deveria aumentar sua responsabilidade, converte-se em salvo-conduto moral. O cidadão “acima de qualquer suspeita” do título não é o que teve inocência demonstrada, mas aquele cuja posição tornou a própria suspeita difícil de formular.

O texto observa que o abuso de poder não começa quando alguém declara estar acima da lei, e sim quando alguém em posição de autoridade acredita que a regra não se aplica a ele. A partir dessa distorção, o indivíduo continua invocando a lei e exercendo competência formalmente reconhecida, mas sua autoridade já não reconhece nenhum limite. A impunidade, conclui a análise, não começa quando as provas desaparecem, mas quando as provas deixam de produzir efeitos ao envolver uma autoridade.

Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.

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