Itália: Cortona franciscana, nas pegadas do Pobrezinho de Assis
A cidade toscana de Cortona, antiga localidade etrusca com vista para o Vale Valdichiana, redescobre sua herança franciscana por meio do projeto "Cortona franciscana", percurso cultural e espiritual que envolve comunidades religiosas, instituições, escolas e profissionais locais. A iniciativa marca os 800 anos da morte de São Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226.
Segundo Rita Adreani, do comitê promotor da iniciativa, Cortona é "um testemunho vivo da presença franciscana". O primeiro encontro remonta a 1211, quando Francisco chegou à cidade para pregações. Em 1225, juntou-se aos primeiros frades uma comunidade de mulheres inspiradas por Clara de Assis, que daria origem à tradição das Clarissas de Cortona. A terceira grande figura é Santa Margarida de Cortona, que chegou de Laviano em 1272 e se tornou padroeira da cidade, conhecida como a "terceira pérola do franciscanismo". As três experiências são unidas pela escolha da pobreza evangélica, da oração e do cuidado dos mais necessitados.
Eremitério Le Celle e as relíquias
Entre os lugares mais sugestivos está o Eremitério Le Celle, imerso em um desfiladeiro de bosque atravessado por uma torrente, onde Francisco esteve diversas vezes para meditar e rezar. Conforme a tradição, ele ali permaneceu em 1226, alguns meses antes de sua morte. O convento, hoje sob os cuidados dos frades capuchinhos, é um dos testemunhos mais autênticos de uma espiritualidade fundada na simplicidade e no encontro com a Criação.
No centro histórico, a Igreja de São Francisco, construída por Frei Elias a partir de meados do século XIII, conserva relíquias atribuídas ao santo: seu saio, uma almofada fúnebre e um evangelho. Ali também repousam os restos mortais de Frei Elias. Outra figura importante é o Beato Guido Vagnottelli, que, segundo a tradição, doou a Francisco o terreno onde foi erguido o Eremitério Le Celle; seus restos estão na co-catedral. O patrimônio espiritual se completa com o mosteiro das Clarissas, onde ainda reside uma comunidade contemplativa, e o santuário de Santa Margarida.
Caminhos, arte e tradições locais
O projeto promove itinerários urbanos e suburbanos, visitas guiadas, encontros escolares e iniciativas culturais. Para Nicola Caldarone, presidente do Ministério do Patrimônio Cultural, Atividades e Turismo (MAEC) e consultor científico da iniciativa, São Francisco tem muito a dizer à sociedade atual, sobretudo em termos de frugalidade, moderação, tolerância e fraternidade. A cidade também dedica uma exposição ao artista Gino Severini, autor da Via Sacra que atravessa os locais sagrados, em cartaz até 1º de novembro. A espiritualidade franciscana se estende ainda à hospitalidade e à gastronomia, com releituras de receitas medievais que usam ingredientes locais.
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