Quem é Jean-Luc Mélenchon, líder da esquerda radical acusada de alimentar a violência na França
O líder da esquerda radical francesa, Jean-Luc Mélenchon, de 75 anos, tornou-se o centro de uma disputa política com o governo do presidente Emmanuel Macron após a onda de protestos violentos que atingiu a França. Fundador do França Insubmissa (LFI), ele vê sua legenda ser acusada por autoridades do país de apoiar grupos extremistas envolvidos em confrontos com policiais, saques e depredações registrados durante as manifestações do último final de semana.
Na terça-feira (20), o ministro do Interior, Laurent Nuñez, afirmou na Assembleia Nacional que o França Insubmissa tem responsabilidade política pela violência observada nas mobilizações. Ele acusou integrantes da legenda de manter vínculos com grupos radicais que participam dos protestos. "Vocês jogaram mais lenha na fogueira. Portanto, têm uma parcela de responsabilidade pelos graves incidentes ocorridos", declarou Nuñez durante discussão com o deputado Manuel Bompard, um dos principais dirigentes do LFI. Mélenchon rejeitou as acusações e responsabilizou o governo Macron pela escalada da violência. Afirmou que integrantes de seu partido não participam de saques e destruições, mas criticou duramente a atuação da polícia na tentativa de conter os confrontos.
Trajetória política
Nascido em 19 de agosto de 1951, em Tânger, no Marrocos, Mélenchon começou a militância ainda jovem. Na década de 1970, participou de uma organização trotskista e, em 1977, ingressou no Partido Socialista francês, onde permaneceu por mais de 30 anos. Foi eleito senador em 1986 e, entre 2000 e 2002, ocupou o cargo de ministro do Ensino Profissional no governo do premiê socialista Lionel Jospin. Também exerceu mandatos no Parlamento Europeu e na Assembleia Nacional. A ruptura com os socialistas ocorreu em 2008, quando acusou o partido de ter abandonado suas bandeiras tradicionais. Naquele ano, fundou o Partido de Esquerda ao lado do também ex-socialista Marc Dolez. Em 2016, criou o França Insubmissa, com a proposta de construir um movimento de oposição às políticas econômicas liberais.
Candidato à Presidência em 2012, 2017 e 2022, Mélenchon anunciou em maio deste ano que disputará novamente o Palácio do Eliseu em 2027, quando termina o segundo mandato de Macron. Sua candidatura, no entanto, ainda não decolou nas pesquisas, nas quais aparece atrás da líder de direita Marine Le Pen e dos candidatos de centro e centro-esquerda. Em 2022, recebeu aproximadamente 22% dos votos no primeiro turno e terminou em terceiro lugar. Em fevereiro deste ano, o Ministério do Interior passou a enquadrar o França Insubmissa na categoria de extrema esquerda para as eleições municipais; a legenda contestou, mas o Conselho de Estado rejeitou o recurso.
Propostas e polêmicas
As propostas de Mélenchon estão reunidas no programa L'Avenir en commun (O Futuro em Comum), que prevê aumento de impostos sobre grandes fortunas, ampliação da intervenção do Estado, elevação do salário mínimo, controle de preços de produtos essenciais e redução da idade de aposentadoria para 60 anos. Na imigração, defende a regularização de trabalhadores sem documentos e a ampliação de direitos dos estrangeiros. Sobre o véu islâmico, reconheceu em setembro que havia "cometido um erro" ao se opor à prática no passado e passou a defender a liberdade de escolha das mulheres. Na segurança pública, a legenda propõe extinguir a BRAV-M e substituir os órgãos de fiscalização interna da polícia por uma instituição independente. Na política externa, Mélenchon já defendeu a saída da França da OTAN e maior independência em relação aos Estados Unidos.
Em outubro de 2018, durante uma operação de busca na sede do partido, Mélenchon discutiu com policiais e chegou a gritar: "A República sou eu!". Em dezembro de 2019, foi condenado a três meses de prisão e ao pagamento de multa de 8 mil euros por resistência e provocação durante a operação, decisão que classificou como política. Em junho deste ano, três vítimas franco-israelenses dos ataques do Hamas apresentaram denúncia contra ele e sua legenda por apologia do terrorismo. O França Insubmissa também foi alvo de críticas após a morte de Quentin Deranque, militante conservador agredido em Lyon em fevereiro deste ano; entre os investigados está o grupo antifascista "Jeune Garde", dissolvido pelo governo e cofundado pelo deputado Raphaël Arnault, que integra o LFI e não foi acusado de participação no crime.
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