Michelle e Carlos não se gostam, mas vão tentar manter bolsonarismo vivo, aponta Sérgio Abranches
O sociólogo e cientista político Sérgio Abranches avalia que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia seu último mandato diante do desafio de construir maiorias em um Legislativo com oposição fortalecida. Para isso, precisará contornar a rivalidade formada na eleição e atrair legendas bolsonaristas, como parte do próprio PL, para montar uma coalizão funcional com o PT.
Abranches é autor do livro Presidencialismo de coalizão: Raízes e evolução do modelo político brasileiro e criou, nos anos 1980, o conceito que descreve as relações institucionais entre Executivo e Legislativo no desenho político brasileiro. Em entrevista à BBC News Brasil, ele afirmou que Lula precisará incluir partidos que elegeram poucos deputados e transformar algumas siglas bolsonaristas em aliadas do governo no Centrão. "Se não, ele não conseguirá governar", disse.
O próprio Lula indicou que pretende seguir esse caminho. Após a oficialização do resultado, em discurso em um hotel de São Paulo, afirmou: "Eu não escolhi o Congresso. Foi o povo que escolheu e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas".
Na avaliação de Abranches, boa parte dos congressistas de partidos de direita, como o PL, tenderá a aceitar integrar a coalizão governista. Ele lembrou que a sigla ficou forte no Congresso, com a maior bancada da Câmara, de 121 deputados, e 19 senadores. "Isso deu uma sobrevida parlamentar à extrema-direita, mas a centro-direita vai migrar para a coalizão do Lula, e é aí que ela poderá usar as suas lideranças democráticas para fazer um contraponto conservador, de centro-direita, ao PT e ao PSB", argumenta. "Eles ainda querem ir para o governo, ainda querem ser ministros, ainda querem dirigir certas organizações", completa.
Será nessa relação institucional que, segundo o cientista político, uma "direita democrática" pode se impor sobre a direita radical. Na entrevista, Abranches também discutiu os motivos que levaram o petista à segunda reeleição e a continuidade do bolsonarismo como força política após a segunda derrota seguida nas urnas.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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