Milhares protestam em Praga enquanto emissoras tchecas entram em greve
Funcionários da televisão e do rádio públicos da República Tcheca realizaram nesta terça-feira uma greve de um dia contra o plano do governo de cortar o financiamento das emissoras e transferir os recursos para o orçamento do Estado. A paralisação teve apoio de milhares de manifestantes, entre estudantes universitários e artistas, que saíram às ruas em Praga e em outras cidades. A greve também provocou restrições nas transmissões.
Funcionários e manifestantes classificaram a proposta como uma tentativa de prejudicar a independência e a viabilidade das emissoras e pediram que o governo retire a reforma. A transmissão de notícias 24 horas da Televisão Tcheca mostrou uma redação às escuras e apresentadores vestidos de preto lendo, de forma incomum, a partir de um roteiro. Profissionais da mídia e simpatizantes marcharam da sede da Televisão Tcheca até a Praça Venceslau, em Praga, onde milhares de pessoas se reuniram em apoio às reivindicações. "Quero que a mídia continue sendo livre", disse a estudante Alena Jechova, de 23 anos.
O projeto de lei do governo foi aprovado em votação preliminar no mês passado e agora aguarda novo debate no Parlamento. A coalizão do primeiro-ministro Andrej Babis, apoiada pelos partidos de extrema-direita Liberdade e Democracia Direta (SPD) e pelos Motoristas Eurocéticos, quer cancelar a taxa mensal de radiodifusão de 205 coroas por família, atualmente usada para o financiamento das emissoras. O governo tem acusado com frequência a mídia privada e pública de parcialidade.
Os críticos afirmam que a transferência do financiamento para o orçamento eliminaria a relação entre a mídia e os telespectadores que pagam pela programação, deixando as decisões de financiamento sujeitas a pressões políticas. Um corte de 15% no financiamento, proposto como parte da mudança, reduziria o orçamento nominal da televisão pública ao nível de 2008 e o da rádio ao de 2005 — cortes que a mídia classifica como insuportáveis. Partidos da oposição compararam as mudanças propostas às reformas na Hungria sob o ex-primeiro-ministro Viktor Orbán.
Babis reiterou na segunda-feira que o governo apenas cumpre uma promessa de aliviar o fardo financeiro sobre a população. "Não há nenhuma disputa sobre democracia. Ninguém quer assumir o controle da mídia pública nem colocá-la sob controle do Estado", disse ele, acrescentando que alterações no projeto poderiam ser feitas em debates posteriores. O repórter da TV tcheca Jan Molacek, membro do comitê de greve, afirmou que a proposta, se aprovada, dará à coalizão governamental ferramentas para influenciar politicamente o conteúdo dos dois veículos públicos. Segundo ele, uma mudança no financiamento não é impossível, mas precisaria se basear em um debate aprofundado e ser respaldada por garantias legais contra interferências.
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