Missão digital e comunhão eclesial: entre a torre e o muro
O Papa Leão XIV aborda a relação entre a missão digital da Igreja e a comunhão eclesial em sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, publicada em maio, dedicada à custódia da pessoa humana no tempo da inteligência artificial. No documento, o pontífice recorre a duas imagens bíblicas para tratar do tema: a torre de Babel, erguida por um povo que queria um só nome e uma só língua e que terminou disperso, e Neemias, que ao chegar a Jerusalém em ruínas reuniu as famílias e distribuiu um trecho do muro para cada uma reconstruir.
Segundo Leão XIV, a escolha real não é entre dizer sim ou não à tecnologia, mas entre erigir Babel ou reconstruir Jerusalém — entre um poder que quer dominar os céus e um povo que trabalha junto na presença de Deus. A reflexão é desenvolvida em artigo do padre Marcio Tadeu, sacerdote na Diocese de Votuporanga (SP), pároco, professor, pós-graduado em Bioética pela Cátedra da UNESCO e apresentador na RedeVida.
O texto parte de um trecho da carta aos Gálatas, em que Paulo se indigna porque um povo que já havia vivido a liberdade do Evangelho se deixou seduzir por vozes que prometiam um conhecimento superior. O autor atualiza essa indignação para o tempo atual, em que qualquer pessoa com um celular e uma boa edição de vídeo pode se apresentar como voz autorizada da tradição católica. Ele observa que perfis de leigos e também de clérigos constroem grandes audiências, mas aos poucos se afastam da comunhão eclesial sem declarar formalmente esse distanciamento: a comunhão esfria enquanto o número de seguidores esquenta.
O artigo cita a mensagem do Papa Francisco para o 58º Dia Mundial das Comunicações Sociais, na qual o pontífice escreveu que os algoritmos não são neutros, e alerta para o risco da câmara de eco, em que a pessoa só escuta variações da própria voz e confunde isso com discernimento. Menciona ainda a encíclica Fratelli Tutti, que trata dos fanatismos entre pessoas religiosas e da tolerância à difamação e à calúnia em redes de violência verbal na internet.
O autor pondera, no entanto, que as mesmas ferramentas podem ajudar a romper barreiras de ignorância e tornar acessível um patrimônio de conhecimento antes restrito a especialistas. A questão, segundo ele, não está na rede social em si, mas quando quem fala em nome da fé trata a própria audiência como medida da verdade. O texto recorre ainda a São José, que diante da gravidez de Maria decidiu resolver o assunto sem expor, como exemplo de espera ativa diante de Deus, e conclui que o convite não é parar de usar as redes, mas lembrar que a Igreja é feita de homens e mulheres que aceitam formar comunhão com quem discordam.
Esta matéria foi publicada primeiro em Religião · Vatican News PT e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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Por Redação