O que um Congresso democrata poderia significar para a ciência nos EUA?
O governo de Donald Trump assumiu o poder disposto a enfraquecer o modelo de financiamento à pesquisa criado no pós-guerra, que fez dos Estados Unidos o principal motor mundial de descobertas científicas. Boa parte dessa agenda — cancelar estudos, reduzir o número de cientistas e ampliar a supervisão política sobre a concessão de recursos — avançou sem a cooperação do Congresso, que, mesmo sob controle republicano, resistiu a tentativas da Casa Branca de reformular a estrutura de pesquisa do país.
Com os democratas assumindo o controle do Congresso, parte dos parlamentares promete ir além da defesa e começar a reverter mudanças implementadas no governo Trump. Ainda não está claro se isso de fato ocorrerá. “A realidade é que a maior parte das manobras tem vindo do governo”, disse Jeremy Berg, ex-diretor dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH). “E isso provavelmente continuará.”
Nos últimos dois anos, o Congresso liderado pelos republicanos rejeitou cortes propostos para o orçamento do NIH, bloqueou planos de formalizar o controle político sobre a concessão de recursos e limitou o poder de autoridades de saúde de reduzir financiamentos. Ainda assim, o governo recorreu a decretos, cortes de pessoal, novas camadas de revisão política e manobras burocráticas para desacelerar gastos com pesquisa. Após a eleição, a senadora Patty Murray, principal democrata no Comitê de Apropriações do Senado, escreveu na rede social X que “o poder sobre o orçamento pertence ao Congresso”. Parlamentares poderiam ampliar a fiscalização sobre recursos retidos e limitar reduções no número de financiamentos.
A deputada Zoe Lofgren, que busca liderar o Comitê de Ciência da Câmara, afirmou que os parlamentares precisam ser mais “prescritivos” e definir como o dinheiro federal deve ser gasto. “Em alguns casos, o dano não pode ser desfeito”, disse, citando cientistas mais jovens que deixaram suas áreas ou se mudaram para o exterior. “Mas podemos evitar que isso continue.” Para Sudip Parikh, diretor-executivo da Associação Americana para o Avanço da Ciência, a turbulência veio principalmente da Casa Branca e do Escritório de Gestão e Orçamento (OMB): “A mudança no Congresso não necessariamente resolverá tudo isso.”
Com os novos processos, os pedidos de financiamento passaram a ser examinados em busca de terminologias consideradas indesejáveis e, em alguns casos, avaliados por nomeados políticos. Ryan D. Enos, cientista político de Harvard, lembrou que a ciência americana prosperou com o volume de recursos federais para pesquisa básica após a Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria, mas dependia de financiamento estável e previsível. “É um mundo muito diferente agora”, afirmou.
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