Os vídeos feitos com IA que erotizam a escravidão no Brasil para lucrar com anúncios
Uma investigação da BBC News Brasil identificou ao menos 150 canais no YouTube que publicam vídeos com histórias fictícias de romance, desejo e violência sexual ambientadas no período da escravidão no Brasil. As produções, que usam imagens ultrarrealistas geradas por inteligência artificial (IA), acumulam cerca de 80 milhões de visualizações e mais de 1 milhão de inscritos somados, segundo a apuração.
Os títulos dos vídeos, como "O escravo gigante de olhos azuis que fez a sinhá enlouquecer" e "A escrava que engravidou do coronel e virou sinhá", são construídos para despertar curiosidade e choque. As capas, criadas por IA, frequentemente retratam homens negros musculosos ao lado de mulheres brancas. O conteúdo é produzido em escala global, com canais no Brasil, nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Canadá, na Espanha e na França, entre outros países.
Especialistas que analisaram parte do material a pedido da BBC News Brasil afirmam que os vídeos romantizam a violência da escravidão, reforçam estereótipos racistas e apresentam histórias inventadas como se fossem fatos documentados. O pesquisador Gustavo Souza, da organização Desvelar, avaliou que as produções resgatam representações de pessoas negras que perderam espaço na TV aberta. "Esse tipo de conteúdo me ofende em uma dimensão coletiva", disse.
A produção está ligada a um mercado de canais que usam IA para criar conteúdo de forma rápida e barata em busca de monetização por publicidade. Em um dos canais identificados, o responsável, Diego Souza, criador de conteúdo que vende cursos sobre como ganhar dinheiro com vídeos nas redes sociais, resumiu a estratégia: "O conteúdo é usado apenas para monetizar. Depois que monetiza, é trocado o nicho".
O YouTube afirmou à BBC News Brasil que, após análise, tomou medidas contra canais e vídeos por violarem suas diretrizes, mas não especificou quais conteúdos foram removidos. A reportagem refez a análise após o posicionamento da empresa e constatou que cerca de 10% dos canais identificados saíram do ar. A plataforma disse que exige que criadores informem quando usam mídia alterada ou sintética e que está em constante evolução dos sistemas para remover conteúdos que tentem explorar a plataforma para obter lucro por meio da promoção de violência ou da sexualização de grupos protegidos.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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