Papa no Peru: tecendo um fio de esperança a partir da prisão feminina de Chorrillos
Na prisão feminina de Chorrillos, em Lima, detentas confeccionam bonecos de veludo com a imagem do Papa Leão XIV, além de terços, colares e outros objetos que serão vendidos fora da unidade. A iniciativa integra o programa peruano "Cárceres Produtivos", política pública do sistema penitenciário com participação do setor privado voltada à reinserção social e à reabilitação das pessoas privadas de liberdade por meio do trabalho.
Segundo Silvia Alayo, secretária executiva da Comissão de Ação Social da Conferência Episcopal Peruana, o projeto oferece formação profissional e trabalho dentro da prisão, o que considera fundamental para o cumprimento do objetivo da pena. A Igreja, afirma, valoriza e apoia a iniciativa do Estado, que surgiu nos últimos seis a oito anos, mas se baseia na experiência das oficinas produtivas nas prisões, onde a Igreja já atuava há décadas.
O trabalho ocorre a poucos dias da chegada de Leão XIV ao Peru, em viagem apostólica que também passará pelo Uruguai e pela Argentina entre 6 e 17 de novembro. Atrás das grades de aço de Chorrillos, o ritmo das máquinas de costura e o barulho das tesouras marcam os dias de prisão de 78 detentas. Para as mulheres, a atividade representa uma válvula de escape mental e uma forma de sustentar as famílias à distância, tentando manter o contato, sobretudo com os filhos. "Podemos até não estar fisicamente com eles, mas estamos lá com a alma e com o coração", disse uma das detentas à agência Reuters.
Alayo observa que o país tem uma população carcerária de quase 107 mil pessoas, distribuída em 69 presídios, com índice de superlotação em torno de 154% no nível nacional. As mulheres representam cerca de 5% do total e há poucas unidades exclusivamente femininas, concentradas principalmente em Lima. Em fevereiro deste ano, Chorrillos abrigava mais de 1.500 pessoas em duas instalações, uma delas de segurança máxima, para uma capacidade inicial de 700 pessoas ou pouco mais. A superlotação, diz, não é apenas um problema de infraestrutura, mas afeta a dignidade, a saúde, a convivência e as possibilidades reais de reinserção social das detidas.
Entre os crimes mais comuns está o tráfico ilícito de drogas, em um fenômeno que Alayo descreve como "feminilização" desses delitos na América Latina. Muitas mulheres se envolvem por situação de necessidade, por serem chefes de família, ou por motivos sentimentais, quando seus parceiros pertencem a círculos de violência ou criminalidade. Diante disso, o compromisso da Igreja inclui o acompanhamento espiritual e a promoção humana integral, com reconhecimento do direito ao trabalho das pessoas privadas de liberdade. Grupos pastorais colaboram com o Instituto Nacional Penitenciário, aproximando-o de empresários em busca de mão de obra qualificada, e paróquias encomendam cruzes, terços e camisetas para jovens da pastoral.
Leão XIV recebeu a cidadania peruana por naturalização em 24 de agosto de 2015. Segundo Alayo, as detentas sentem que querem fazer parte da visita do Pontífice. Quando ele foi eleito, foram escritas cartas ao Papa em Chorrillos, celebradas missas de agradecimento e compostos poemas. Uma detenta, Milagros, disse estar certa de que, em Lima, "o espírito dele chegará até elas" na unidade: "continuaremos rezando por ele e nos sentindo irmãs do nosso Papa peruano".
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