Por que a Espanha, que construía casas demais, vive hoje uma grave crise de moradia
A Espanha enfrenta uma grave crise de moradia que combina oferta insuficiente, aumento da demanda e preços em alta. O caso da aposentada Maricarmen Abascal, de 87 anos, retirada de maca do apartamento no centro de Madri onde morou de aluguel por sete décadas, ganhou repercussão nacional e reacendeu o debate. Ela conseguiu um acordo com a empresa proprietária do imóvel e poderá voltar para casa, mas o episódio provocou uma onda de protestos. Neste sábado (3/10), milhares de manifestantes foram às ruas em toda a Espanha exigindo maior proteção aos inquilinos, após o governo não conseguir aprovar no parlamento, na sexta-feira (2/10), uma legislação emergencial sobre habitação.
Segundo um relatório da Fundação de Fomento de Estudos Sociais e Sociologia Aplicada (FOESSA), em 2024 uma em cada quatro famílias espanholas afirmava ter problemas para conseguir ou manter sua moradia. Dados do Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha (INE) mostram que 47,3% dos jovens de 26 a 34 anos continuam morando com os pais, principalmente por não terem condições de comprar ou alugar imóvel devido aos altos custos.
O paradoxo é que, entre 1997 e 2008, o país construiu cinco milhões de casas e apartamentos, cerca do dobro da demanda da época. Para especialistas, a crise financeira de 2008, que levou à falência de diversas empresas do setor, é um dos principais fatores do déficit atual. "A reviravolta ocorreu precisamente porque o excesso de construções registrado entre 1997 e 2007 deixou a impressão de que se havia construído demais", explica Carme Trilla, presidente da fundação Hàbitat3. O professor José García Montalvo, da Universidade Pompeu Fabra, lembra que o país passou de quase 14 residências por 1 mil habitantes para duas por 1 mil, quando outros países constroem quatro. O resultado é um déficit habitacional de cerca de 750 mil residências, segundo o Banco da Espanha, número que pode superar um milhão em dois anos sem medidas necessárias.
Ao mesmo tempo, a população cresce impulsionada pela imigração. "Desde 2021, a formação de lares está em alta. Agora mesmo, na Espanha, estão sendo criados 250 mil lares líquidos a cada ano, a maioria graças à migração procedente da Colômbia e da Venezuela", diz Jorge Galindo, da Esade. Desde 2015, os preços de venda e aluguel subiram 80%, enquanto os salários aumentaram apenas 30%, segundo o INE. Em algumas cidades, o aluguel médio chega ao equivalente a R$ 7 mil por mês, quase a totalidade do salário médio dos jovens.
O debate também envolve fundos de investimento e o aluguel para turistas. O porta-voz do Sindicato das Inquilinas e Inquilinos de Sevilha, Jaime Jover, afirma que os fundos têm "uma parcela importante de responsabilidade", mas García Montalvo relativiza: segundo ele, esses fundos detêm cerca de 5% do mercado. O economista destaca que a maior parte dos imóveis pertence a pequenos proprietários — cerca de 2,4 milhões de espanhóis alugam casas e apartamentos, segundo o Observatório do Aluguel. Muitos têm optado por aluguéis de curta duração, reduzindo a oferta disponível.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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Por Redação