Títulos isentos de IR pagam taxas “grotescas” após eleição, mas risco cresce
A forte alta das taxas das NTN-Bs, títulos públicos atrelados à inflação medida pelo IPCA, no dia seguinte à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva puxou também o rendimento dos títulos privados isentos de Imposto de Renda. Como a NTN-B passou a pagar quase 8% ao ano acima da inflação, debêntures de infraestrutura de longo prazo e de baixo risco, com classificação AAA, passaram a oferecer cerca de 8% sem IR — o equivalente a 9,40% em um papel tributado, considerando a alíquota de 15% para aplicações acima de dois anos.
“Temos papéis de empresas de classificação de baixo risco, triplo A, como Sabesp, Cteep, com taxas de 0,10 ponto percentual acima das NTN-B e sem imposto, são taxas grotescas”, afirma Pierre Jadoul, responsável pela área de crédito da ARX Investimentos. Ele pondera, porém, que esses papéis têm risco no curto prazo, já que os fundos de debêntures incentivadas vêm registrando saques. “É possível que esses fundos tenham de vender papéis para fazer caixa para os saques nas próximas semanas e esse juro e o spread vão subir e podem trazer perdas para o investidor”, alerta.
Levantamento da consultoria Vitrify, com dados calculados pela C2P, mostra a oscilação das taxas. A mediana de 205 papéis indexados ao IPCA — entre debêntures incentivadas, CRIs e CRAs — estava em 8,60% ao ano acima da inflação na sexta-feira anterior ao primeiro turno, recuou para cerca de 7,90% em 9 de outubro, voltou a 8,60% no dia seguinte ao segundo turno e, na quinta-feira (29), já batia 8,92%. O ajuste não acompanhou o ritmo dos títulos do governo, o que mexeu com o spread. “Houve uma reação mais lenta das taxas dos papéis privados no mercado secundário em relação ao referencial do Tesouro, por isso os spreads caíram, mas aos poucos voltaram a subir”, diz Daniel Magalhães, cofundador da Vitrify.
Nas debêntures de infraestrutura, a amostra de 121 papéis mostra que a taxa mediana atingiu a mínima de 7,40% após o primeiro turno, saltou para 7,80% no dia seguinte ao segundo turno e bateu cerca de 8,35% em 27 de outubro, encerrando a quinta-feira em 8,25% ao ano. Nos CRIs, a taxa terminou em 9,26%; nos CRAs, subiu para 12,17%. Nos prefixados, a mediana dos 62 papéis passou de cerca de 15,1% para 17,11%, e os CRAs prefixados alcançaram 18,93%.
Jadoul vê dois vetores de compra no pós-eleição: a entrada de escritórios de gestão de patrimônio e de tesourarias de bancos, que compraram de olho no nível das taxas para revender a pessoas físicas, e o burburinho sobre a possibilidade de o governo acabar com a isenção desses papéis. Ainda assim, ele vê com reserva a queda dos spreads, porque a indústria de fundos incentivados segue registrando resgates. “O investidor tem de ficar cauteloso sobre quão profundas são as compras que estão ocorrendo”, ressalta. Para ele, infraestrutura é um dos setores mais resilientes da economia, por ser regulado e ligado a serviços essenciais, com maior sensibilidade em telecomunicações e em projetos de energia renovável afetados pelo curtailment.
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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