“Vai ser diferente”: como investir durante o Lula 4, segundo a XP
Ganhar dinheiro com ativos brasileiros nos próximos quatro anos vai exigir uma estratégia diferente da que o mercado vinha montando até a semana passada. Entre o primeiro e o segundo turno, investidores apostaram na queda dos juros longos e na valorização da Bolsa, à espera de uma mudança na condução das contas públicas. Com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), essa aposta deixou de ser o cenário-base da XP Investimentos.
Nas contas de Rodrigo Sgavioli, head de alocação da casa, a probabilidade de um ajuste fiscal caiu de até 70% para algo entre 20% e 30%. Na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno, o Ibovespa acionou o circuit breaker e fechou em queda de 13,88%, a maior desde março de 2020. O dólar subiu 8,21%, a R$ 5,40, e as taxas dos contratos de DI chegaram a avançar mais de 300 pontos-base. Nos dois pregões seguintes, o Ibovespa seguiu caindo até os 171 mil pontos.
Mesmo assim, Sgavioli rejeita a ideia de quatro anos perdidos para o investidor. “Não acho que vai ser mais difícil, eu acho que vai ser diferente”, afirma, em entrevista ao InfoMoney. “Dá para ganhar dinheiro. Dá para ganhar bastante dinheiro até, eu diria. Só que você ganha diferente.” O caminho, segundo ele, passa por carteiras mais apoiadas no carrego do que no ganho de capital, prazos mais curtos na renda fixa e uma postura mais tática, pelo menos até que fique mais clara a dinâmica fiscal brasileira.
Na avaliação do especialista, a maior parte do prêmio de risco dos ativos domésticos é dada hoje pela condução das contas públicas. A piora marginal vem dos pacotes anunciados entre o primeiro e o segundo turno, que incluem despesas obrigatórias, discricionárias e renúncias de receita e podem somar de R$ 60 bilhões a R$ 80 bilhões adicionais na conta de 2026 e 2027. Por isso, as próximas semanas serão decisivas para saber se o governo reeleito vai mostrar disposição de ajustar também as despesas, e não apenas a arrecadação. Com um plano crível, a queda dos prêmios de risco seria gradual e, num cenário otimista, permitiria sonhar com uma Selic de equilíbrio entre 9% e 10%. O cenário-base da casa, porém, aponta para a taxa entre 11,5% e 12% no fim de 2027.
Na renda fixa, a recomendação mudou de tom: para quem ainda não montou posição, talvez valha entrar em prefixados com menor intensidade e prazos mais curtos. “O cenário de ajuste fiscal não está abandonado. Ele só é menos provável”, diz. Um prefixado entre 13% e 14% “não é ruim para carrego”, ainda mais com a inflação rodando entre 5% e 6%, mas o ganho de capital com a marcação a mercado sai do radar. Os títulos atrelados à inflação cumprem outra função: uma carteira moderada da XP tem hoje entre 20% e 25% em NTN-Bs (Tesouro IPCA+), peso que reflete a chance, baixa mas crescente, de um cenário de dominância fiscal — probabilidade que era de 5% a 10% há dois anos e está hoje entre 15% e 20%.
Na Bolsa, que ele compara a um prefixado longo, o mercado “rapidamente colocou no preço bastante coisa ruim”, com possíveis exageros em alguns setores. Parte deles pode voltar à lista de preferências da casa, como utilities, infraestrutura, empresas do setor financeiro e commodities, principalmente as ligadas ao petróleo e ao agro. A ideia é reduzir o beta da carteira, ou seja, sua sensibilidade às oscilações do Ibovespa. Sgavioli insiste ainda no que chama de “risco de não tomar risco”: quem tem uma fatia de renda variável prevista na política de investimentos e não a cumpre fica de fora de movimentos tão rápidos quanto os deste ano. “Por ora, o horizonte encurtou”, conclui.
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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