Ucranianos combatem russos dentro de gasodutos subterrâneos. Eu entrei em um deles
No subsolo de uma floresta no leste da Ucrânia, soldados ucranianos transformaram antigos gasodutos desativados em posições de combate. Os tubos, com menos de 1,2 metro de diâmetro, obrigam os militares a se mover agachados ou deitados, mas permitem que passem semanas no local enfrentando tropas russas com armas e granadas, retirando companheiros feridos ou mortos da linha de frente e transportando suprimentos essenciais.
Segundo o coronel Volodymyr Lysiuk, subcomandante do Corpo Khartia, as forças russas foram as primeiras a usar dutos industriais abandonados nesta guerra, retomando uma tática que remete à Primeira Guerra Mundial. Na região próxima a Kupiansk, no nordeste do país, existem cerca de 130 quilômetros de gasodutos desativados. No fim do ano passado, tropas russas usaram esses dutos para se infiltrar na cidade. Em resposta, os militares ucranianos localizaram mapas da rede e engenheiros aposentados que haviam participado de sua construção, e instalaram sistemas de ventilação.
Na primeira operação do tipo, soldados ucranianos encontraram russos dentro de um duto. Houve um intenso tiroteio, mas eles não conseguiram expulsar o inimigo. Os ucranianos então abriram uma saída no tubo, cavaram um túnel até um duto paralelo e voltaram a entrar no primeiro atrás das posições russas, encurralando o adversário. De acordo com Lysiuk, as forças ucranianas mataram dezenas de russos e capturaram vários prisioneiros.
O presidente Volodymyr Zelensky e analistas militares independentes afirmam que a operação ajudou a defender Kupiansk, embora a batalha continue. Uma equipe liderada pelo analista Franz-Stefan Gady, sediado em Viena, classificou a ação subterrânea como um “sucesso tático”, dizendo que ela desacelerou, mas não interrompeu totalmente o avanço russo. O resultado levou a Ucrânia a estudar outras formas de transferir a guerra para o subsolo: parte da produção militar e da logística já foi levada para estruturas subterrâneas, e, segundo duas autoridades militares ucranianas, os militares calculam os custos de construir uma rede de túneis para conectar postos de observação, estoques de suprimentos e unidades de apoio na retaguarda.
No interior da rede, veículos elétricos enferrujados circulam pelos dutos a cerca de 16 km/h, levando munição e alimentos durante o dia e terra no sentido contrário à noite. Em um dos centros logísticos, próximo do que é conhecido como “linha zero”, o último ponto da frente de batalha ocupado por forças ucranianas, bombas guiadas russas atingiram áreas próximas na superfície e provocaram leves tremores no espaço subterrâneo. Quando um drone quadricóptero se aproximou de uma das entradas, os soldados correram para se esconder mais profundamente na instalação. Segundo o sargento-chefe Vladyslav, de 32 anos, os drones russos frequentemente tentam localizar formas de entrar na posição, inclusive com sensores térmicos capazes de detectar calor humano.
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