Belchior, que faria 80 anos, é cada vez mais cultuado, mas a devoção gira em torno do álbum 'Alucinação' e ignora a maior parte da obra do artista
Belchior (1946-2017) completaria 80 anos nesta segunda-feira, 26 de outubro, e segue como objeto de devoção crescente. Livros, série, cinebiografia sobre seus últimos anos, documentário, musicais e shows em tributo têm ampliado o interesse pela obra do cantor cearense — redescoberto após o período de exílio errante entre 2007 e 2017, no Uruguai e em cidades do interior do Rio Grande do Sul, e cultuado com ainda mais força depois de sua morte, aos 70 anos.
Esse culto, porém, gira quase todo em torno de "Alucinação", álbum de 1976 apontado como obra-prima da discografia do compositor de "Na hora do almoço", música que o revelou em festival há 55 anos. Nas dez faixas do disco, Belchior refletiu sobre o Brasil e o já desfeito sonho hippie sob a ótica angustiada do migrante nordestino. A ele somam-se canções de alcance transcendental como "Mucuripe" (1972, com Raimundo Fagner), "Todo sujo de batom" (1974), "Galos, noites e quintais" (1976), "Coração selvagem" (1977), "Divina comédia humana" (1978) e "Comentário a respeito de John" (1979).
Quem quiser ir além do disco antológico encontra material nos álbuns dos anos 1980, considerados irregulares, e em "Baihuno" (1993), apontado como o último grande movimento do artista para reeditar o vigor dos anos 1970. Na faixa-título, Belchior denunciou "trogloditas, traficantes, neonazistas, farsantes" e afirmou que "o rinoceronte é mais decente do que esta gente demente do Ocidente cristão". Para o autor da análise, o culto ao octogenário pode saturar se continuar centrado apenas no repertório de 1976.
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