O fim da gestora “faz tudo”: por que ETFs avançam e multimercados perdem espaço
O investidor brasileiro construiu durante anos boa parte de sua alocação dentro de um único produto. Uma das consequências, segundo o Boston Consulting Group (BCG), foi a proliferação dos fundos multimercados. Agora, essa lógica começa a dividir espaço com uma forma diferente de montar carteiras: produtos mais especializados, combinados conforme a necessidade de cada investidor.
É nesse movimento que os ETFs ganham relevância. Em vez de um fundo reunir diferentes estratégias, a carteira passa a ser montada por blocos. "Na hora que eu trabalho com Lego, o ETF é um bloco óbvio", afirma André Xavier, sócio e diretor executivo do BCG. "É eficiente na regulação, na liquidez, em custos e em transparência." Os ETFs ainda representam menos de 1% de uma indústria brasileira de fundos de R$ 12 trilhões a R$ 13 trilhões, segundo os executivos. Para Ricardo Tiezzi, também sócio do BCG, há uma limitação: o ativo adjacente. O mercado brasileiro de ações é menor e menos líquido que o americano, o que restringe o número de combinações possíveis. Ainda assim, ele vê espaço para crescimento: "Está começando a decolar e vem com tudo para transformar de uma forma relevante a indústria de fundos no Brasil".
A mudança vai além da disputa entre ETFs e multimercados. Os sócios do BCG identificam uma polarização crescente na indústria global de gestão de recursos. De um lado, empresas capazes de ganhar escala e oferecer produtos a custos menores; de outro, gestoras que buscam se diferenciar por estratégias mais específicas. "O meio do mercado ficou um pouco esvaziado", diz Xavier. Segundo ele, o setor tem retorno intrínseco elevado, mas enfrenta regulação cada vez mais exigente e despesas crescentes. "Você tem crescimento de receitas, mas inferior aos custos." Como resposta, cresce a busca por escala — as maiores empresas de asset management no mundo avançam mais rápido que as menores.
Segundo o BCG Global Asset Management Report 2026, os ativos sob gestão no mundo chegaram a US$ 147 trilhões em 2025, avanço de 11% em relação ao ano anterior. Mas 80% da expansão veio da valorização dos ativos já em carteira, e não da entrada de novos recursos. "Como é que eu consigo voltar a captar?", questiona Xavier. No Brasil, o diagnóstico não está na penetração: cerca de um terço dos ativos investidos por pessoas físicas está em fundos mútuos, e a participação passa de 40% quando entram os recursos de previdência. O desafio é de escala — o patrimônio médio de um fundo nos Estados Unidos é 40 vezes maior que o observado no Brasil.
Os multimercados enfrentam ainda o obstáculo dos juros. Com a Selic em patamares de 14% a 15% ao ano, competir com o CDI tornou-se extremamente difícil para a gestão ativa. "Se o juro continuar nesse patamar, é muito difícil para alguém que está no multimercado poder ambicionar um crescimento muito alto", afirma Xavier, que vê cenário mais positivo à frente caso avancem expectativas de ajuste fiscal e queda da inflação. Para Tiezzi, uma eventual redução dos juros tende a estimular a busca por alternativas além do risco zero dos títulos públicos.
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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Por Redação